Isabella percebeu os sinais, aquelas premissas que preenchem os segundos antes do primeiro beijo. Mas não reagiu, apenas esperou com a boca entre aberta. Claro, o seu coração reagiu: passou a correr assim que os lábios se encontraram. Parecia que fugia desesperadamente, que já sabia que tentavam apanhá-lo, roubá-lo para a insensatez apaixonada.
O cérebro de Isabella ainda não havia processado toda aquela coisa de razão, a razão estava de férias na verdade, só voltaria quando a merda toda já estivesse feita. Porém, processou muito bem as sensações, e fez com que a mão da outra garota deslizando pelo seu braço arrepiasse todos os seus pelos, e permitiu ainda, que ela sentisse a mão da garota apertar os seus dedos. Foi como apertar um botão, e o amor aconteceu diante dos olhos de Isabella. Mas seus olhos estavam fechados enquanto sua língua sentia um novo sabor. Se ela tivesse visto, quem sabe até desse tempo de vestir uma armadura, pegar o escudo, desembainhar a espada e lutar contra. Que bobagem! Ninguém consegue ver o tal do amor aparecer. E quando se vê, já se está rendido, ele já lhe roubou o corpo, a razão, e usa da sua voz para dizeres lindos. Se quer saber, até os dentes da Isabella começaram a forçar sorrisos o tempo todo.
Com o passar dos dias, Isabella passou a reagir por si só. Tudo começou a fazer efeito, como uma pílula que se toma pela boca e o corpo começa a digerir. E aos poucos ela foi digerindo a idéia, até que um dia se olhou no espelho e constatou que estava realmente apaixonada. Foi como a maior descida da montanha-russa, sem voltas, apenas uma queda cheia de borboletas batendo suas lindas asas coloridas dentro de sua barriga. Por falar em cores, elas ficaram muito mais vivas, os olhos passaram a enxergar a beleza em tudo. Isabella sentiu que com a outra garota do seu lado, tanto fazia o cenário, tudo era bom: uma mesa para dois, uma calçada, um gramado, parque, ruas, quartos, salas, pátios, lojas, bancos, filas, esconderijos, a puta que paril! De repente, o tempo resolve passar mais rápido, os sonhos aumentam de tamanho, o futuro vira um quadro bonito na parede, e acordar faz mais sentido.
Há tantos motivos para o fim de uma paixão: o famoso prazo de três anos, a mesmisse ou rotina, distância, mentiras, covardia, pouco caso e desapreço, ciúmes, tempestades, brigas com direito a roupas pelo ar e móveis caindo pela janela, desamor, infidelidade, e etcétera, e etcétera, e etcétera. Para não escolher o etcétera, eu vou escolher a infidelidade, que nada mais é uma soma de muitas das coisas que citei a cima. Na verdade, a infidelidade escolheu a Isabella.
Quando o novo deixou de ser novo, perdeu a cor, perdeu o que interessava e entediou. Isabella entediava, envelheceu o amor da outra garota, que de velho, morreu. Coisas como essas não se podem prever, não se têm aviso prévio, chegam a qualquer hora e os olhos não podem acompanhar. Alguém chegou, chacoalhou a outra garota, e lhe roubou o coração. Sabe, alguém sempre ama mais, geralmente é sempre quem sofre mais. Corações não se trocam, se roubam. É tudo uma questão de quem é o ladrão. Isabella perdeu o coração, e a garota de descuidada que era, deixo-o cair no chão, ele se quebrou.
Era novidade chorar assim. O cenário de qualquer um, passou para nenhum. O tempo parou. Os sonhos diminuíram. O futuro caiu da parede. Nada mais fazia sentido. E não se podia lavar a mente dos pensamentos, muito menos das lembranças. Era preciso lidar com isso. Então a razão quis voltar, mas seu lugar já estava ocupado. Apertando-se um pouco aqui e alí com os devaneios de Isabella, pôde-se tomar seu posto empoeirado de volta, mas doía um pouquinho. Tá, doía para caralho!
sábado, 27 de dezembro de 2008
Sobre quem ama mais
domingo, 30 de novembro de 2008
Me deita e me dorme
Do que é feito a insônia mesmo? Eu falo tanto dela ultimamente que é como se eu gostasse. Às vezes eu até gosto, quanto te encontro nessa falta de dormir. É tão melhor do que a sua falta. E prefiro quando sonho acordada, porque sonho o que quero, porque sei o que quero. Não adianta, mas é mesmo desses seus olhos, e desse seu risinho de vergonha que eu gosto.
Hoje nem fechei meus olhos. Mas não foi porque o sono não deixou, foi mesmo essa vontade que eu guardo por você. Sei lá, tinha um lado meu que sempre teve essa tendência de se perder nos outros, de fugir com eles quando as coisas mudam. Só que o melhor de mim está escondido em você, ou nós, ainda não sei. E quando as coisas quiserem mudar novamente, que seja pra melhor.
Eu só acho que preciso dormir um pouco. É, deve ser isso.
terça-feira, 25 de novembro de 2008
Passou
Já foi o tempo em que ela se perdia das preocupações, agora, deu para estar perdida nelas. Sempre esperou pelo "eu também" que lhe acarinhasse os ouvidos, mas nunca disse nada que pudesse voltar para si. De olhos abertos, ela deixou de ver a televisão para assistir às imagens que sua memória resgatava e remoldava com ar de perfeição. Talvez nada que ela pudesse ver alí, viveu de fato. Mas foi tão real como um sonho é antes que se acorde. Viu a mão feminina que tanto queria em seu rosto agora, lhe puxar pela cintura e lhe empurrar para um corpo novo. Essas duas já haviam começado do meio.
Do meio para o fim. Do copo que se quebrou na discussão, da raiva que rasgou a fotografia, do telefone que não tocou, e da carta que nunca chegou. Só o seu segredo permaneceu a salvo no silêncio: quando deitada ao lado da outra, sempre traiu o que dizia para sonhar em estar sozinha. Sozinha não seria tão ruim assim. Mas foi.
Depois as ruas. Todas as pessoas que lhe chamavam a atenção em todas essas malditas ruas eram iguais. Atraiam sua vontade, e traiam sua sensatez. Queria esquecer dos cabelos escuros, dos olhos castanhos, dos dedos finos, do cheiro de menina.
A cortina ainda dançava na janela quando despertou da distração, e o som da cidade que invadiu a sala lhe trouxe de volta a razão. Foi então que tirou os pés de cima do sofá e passou a deixá-los no chão.
O chá esfriou na mesa, o cigarro virou cinza de cinzeiro, e a saudade ficou. A saudade ficou pedurada como um quadro triste na parede.
Caiu de muito alto e caiu em si, em cima de si mesma. É que existem coisas que sempre serão suas, mas jamais irão lhe pertencer.
De mãos dadas com a ironia
Vamos desprezar nossos corações, vamos conhecer pessoas novas, dar espaço para outras invasões. Vamos abrir as portas, os braços e as pernas. Vamos nos trair, em boa hora para sujar nossos rostos e bocas. Vai, podemos contradizer nossas verdades e nos proteger com o perigo. Cair e quebrar os joelhos para desaprender a levantar. Eu posso fingir que não dói porque sei mentir. E se eu não quisesse tanto o contrário, já teria me perdido no vazio da mais falsa liberdade. Mas alguma coisa em você me mostrou que liberdade é algo mais parecido com se livrar do resto do mundo.
quarta-feira, 19 de novembro de 2008
Carta à insônia
Alguma coisa ainda me deixa nervosa sobre as noites. A cabeça pode até deitar, mas minha mente insistirá em apanhar dos meus pensamentos. Eles estão longe agora e só sabem me abandonar pela manhã.
O vento que dorme na janela parece soprar aquele nome, que fica pingando nos meus ouvidos como uma goteira infinita. O frio aparece e me faz implorar por aquele abraço de braços distantes.
Então forço, tenho que dormir! E tento. De roupas, de sapatos infiados nos pés, de chances presas nas mãos. Nada mais funciona. Nem palavras conseguem ser suficientes, mesmo com as melhores acrobacias e conjugações verbais. Tudo já foi dito e agora só é preciso mostrar.
Tenho a impressão de que tudo está apenas na minha cabeça. Me dê algo para acreditar, e esconder toda essa sua razão.
E depois de todas as dúvidas alimentarem meu cansaço, brigo debaixo do lençol por conta de alguma posição confortável que não existe, esperando por algo que não se chama mais sono.
Essa seria a contagem regressiva se não fosse quase impossível dormir quando eu sei que você está acordada, porque você é a minha insônia.
segunda-feira, 17 de novembro de 2008
Alguém para se lembrar
Juro que não sei o que você fez das minhas noites. Sem você elas são intermináveis, trocam de lugar com o tédio, me pintam olheiras, e fazem do sono algo inquietante. Fico horas brincando de mudar de posição na cama, pensando em tudo, e tudo te tem de alguma forma. Minha cabeça fazendo joguinhos psicológicos, e o pretexto de olhar para o horário no celular e calcular horas de sono, é na verdade só para pensar quanto tempo mais vou ficar sem te ler.
Nunca estiquei tanto minha imaginação como nesses últimos meses. É de sentir meus lábios beijando suas pálpebras para que seu sono venha junto com o meu. Poder dormir sem dizer adeus, até logo, ou qualquer coisa parecida. Tão real quanto sentir seu cheiro no abraço mais apertado, abraço de saudade, saudade do que ainda não foi meu. É tanta imaginação, que me faz acreditar na morte do final no recomeço de começos. Juro que não sei o que você fez de mim. Certamente colocou uma etiqueta com seu nome dentro dos meus sonhos. São seus ou só sonho com você aqui, agora. Eu vejo que as vezes fica difícil de acreditar em mim. Então, apenas acredite em nós.
