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sábado, 27 de dezembro de 2008

Sobre quem ama mais

Isabella percebeu os sinais, aquelas premissas que preenchem os segundos antes do primeiro beijo. Mas não reagiu, apenas esperou com a boca entre aberta. Claro, o seu coração reagiu: passou a correr assim que os lábios se encontraram. Parecia que fugia desesperadamente, que já sabia que tentavam apanhá-lo, roubá-lo para a insensatez apaixonada.
O cérebro de Isabella ainda não havia processado toda aquela coisa de razão, a razão estava de férias na verdade, só voltaria quando a merda toda já estivesse feita. Porém, processou muito bem as sensações, e fez com que a mão da outra garota deslizando pelo seu braço arrepiasse todos os seus pelos, e permitiu ainda, que ela sentisse a mão da garota apertar os seus dedos. Foi como apertar um botão, e o amor aconteceu diante dos olhos de Isabella. Mas seus olhos estavam fechados enquanto sua língua sentia um novo sabor. Se ela tivesse visto, quem sabe até desse tempo de vestir uma armadura, pegar o escudo, desembainhar a espada e lutar contra. Que bobagem! Ninguém consegue ver o tal do amor aparecer. E quando se vê, já se está rendido, ele já lhe roubou o corpo, a razão, e usa da sua voz para dizeres lindos. Se quer saber, até os dentes da Isabella começaram a forçar sorrisos o tempo todo.
Com o passar dos dias, Isabella passou a reagir por si só. Tudo começou a fazer efeito, como uma pílula que se toma pela boca e o corpo começa a digerir. E aos poucos ela foi digerindo a idéia, até que um dia se olhou no espelho e constatou que estava realmente apaixonada. Foi como a maior descida da montanha-russa, sem voltas, apenas uma queda cheia de borboletas batendo suas lindas asas coloridas dentro de sua barriga. Por falar em cores, elas ficaram muito mais vivas, os olhos passaram a enxergar a beleza em tudo. Isabella sentiu que com a outra garota do seu lado, tanto fazia o cenário, tudo era bom: uma mesa para dois, uma calçada, um gramado, parque, ruas, quartos, salas, pátios, lojas, bancos, filas, esconderijos, a puta que paril! De repente, o tempo resolve passar mais rápido, os sonhos aumentam de tamanho, o futuro vira um quadro bonito na parede, e acordar faz mais sentido.
Há tantos motivos para o fim de uma paixão: o famoso prazo de três anos, a mesmisse ou rotina, distância, mentiras, covardia, pouco caso e desapreço, ciúmes, tempestades, brigas com direito a roupas pelo ar e móveis caindo pela janela, desamor, infidelidade, e etcétera, e etcétera, e etcétera. Para não escolher o etcétera, eu vou escolher a infidelidade, que nada mais é uma soma de muitas das coisas que citei a cima. Na verdade, a infidelidade escolheu a Isabella.
Quando o novo deixou de ser novo, perdeu a cor, perdeu o que interessava e entediou. Isabella entediava, envelheceu o amor da outra garota, que de velho, morreu. Coisas como essas não se podem prever, não se têm aviso prévio, chegam a qualquer hora e os olhos não podem acompanhar. Alguém chegou, chacoalhou a outra garota, e lhe roubou o coração. Sabe, alguém sempre ama mais, geralmente é sempre quem sofre mais. Corações não se trocam, se roubam. É tudo uma questão de quem é o ladrão. Isabella perdeu o coração, e a garota de descuidada que era, deixo-o cair no chão, ele se quebrou.
Era novidade chorar assim. O cenário de qualquer um, passou para nenhum. O tempo parou. Os sonhos diminuíram. O futuro caiu da parede. Nada mais fazia sentido. E não se podia lavar a mente dos pensamentos, muito menos das lembranças. Era preciso lidar com isso. Então a razão quis voltar, mas seu lugar já estava ocupado. Apertando-se um pouco aqui e alí com os devaneios de Isabella, pôde-se tomar seu posto empoeirado de volta, mas doía um pouquinho. Tá, doía para caralho!

domingo, 30 de novembro de 2008

Me deita e me dorme

Do que é feito a insônia mesmo? Eu falo tanto dela ultimamente que é como se eu gostasse. Às vezes eu até gosto, quanto te encontro nessa falta de dormir. É tão melhor do que a sua falta. E prefiro quando sonho acordada, porque sonho o que quero, porque sei o que quero. Não adianta, mas é mesmo desses seus olhos, e desse seu risinho de vergonha que eu gosto.
Hoje nem fechei meus olhos. Mas não foi porque o sono não deixou, foi mesmo essa vontade que eu guardo por você. Sei lá, tinha um lado meu que sempre teve essa tendência de se perder nos outros, de fugir com eles quando as coisas mudam. Só que o melhor de mim está escondido em você, ou nós, ainda não sei. E quando as coisas quiserem mudar novamente, que seja pra melhor.
Eu só acho que preciso dormir um pouco. É, deve ser isso.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Passou

Já foi o tempo em que ela se perdia das preocupações, agora, deu para estar perdida nelas. Sempre esperou pelo "eu também" que lhe acarinhasse os ouvidos, mas nunca disse nada que pudesse voltar para si. De olhos abertos, ela deixou de ver a televisão para assistir às imagens que sua memória resgatava e remoldava com ar de perfeição. Talvez nada que ela pudesse ver alí, viveu de fato. Mas foi tão real como um sonho é antes que se acorde. Viu a mão feminina que tanto queria em seu rosto agora, lhe puxar pela cintura e lhe empurrar para um corpo novo. Essas duas já haviam começado do meio.
Do meio para o fim. Do copo que se quebrou na discussão, da raiva que rasgou a fotografia, do telefone que não tocou, e da carta que nunca chegou. Só o seu segredo permaneceu a salvo no silêncio: quando deitada ao lado da outra, sempre traiu o que dizia para sonhar em estar sozinha. Sozinha não seria tão ruim assim. Mas foi.
Depois as ruas. Todas as pessoas que lhe chamavam a atenção em todas essas malditas ruas eram iguais. Atraiam sua vontade, e traiam sua sensatez. Queria esquecer dos cabelos escuros, dos olhos castanhos, dos dedos finos, do cheiro de menina.
A cortina ainda dançava na janela quando despertou da distração, e o som da cidade que invadiu a sala lhe trouxe de volta a razão. Foi então que tirou os pés de cima do sofá e passou a deixá-los no chão.
O chá esfriou na mesa, o cigarro virou cinza de cinzeiro, e a saudade ficou. A saudade ficou pedurada como um quadro triste na parede.
Caiu de muito alto e caiu em si, em cima de si mesma. É que existem coisas que sempre serão suas, mas jamais irão lhe pertencer.

De mãos dadas com a ironia

Vamos desprezar nossos corações, vamos conhecer pessoas novas, dar espaço para outras invasões. Vamos abrir as portas, os braços e as pernas. Vamos nos trair, em boa hora para sujar nossos rostos e bocas. Vai, podemos contradizer nossas verdades e nos proteger com o perigo. Cair e quebrar os joelhos para desaprender a levantar. Eu posso fingir que não dói porque sei mentir. E se eu não quisesse tanto o contrário, já teria me perdido no vazio da mais falsa liberdade. Mas alguma coisa em você me mostrou que liberdade é algo mais parecido com se livrar do resto do mundo.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Carta à insônia

Alguma coisa ainda me deixa nervosa sobre as noites. A cabeça pode até deitar, mas minha mente insistirá em apanhar dos meus pensamentos. Eles estão longe agora e só sabem me abandonar pela manhã.
O vento que dorme na janela parece soprar aquele nome, que fica pingando nos meus ouvidos como uma goteira infinita. O frio aparece e me faz implorar por aquele abraço de braços distantes.
Então forço, tenho que dormir! E tento. De roupas, de sapatos infiados nos pés, de chances presas nas mãos. Nada mais funciona. Nem palavras conseguem ser suficientes, mesmo com as melhores acrobacias e conjugações verbais. Tudo já foi dito e agora só é preciso mostrar.
Tenho a impressão de que tudo está apenas na minha cabeça. Me dê algo para acreditar, e esconder toda essa sua razão.
E depois de todas as dúvidas alimentarem meu cansaço, brigo debaixo do lençol por conta de alguma posição confortável que não existe, esperando por algo que não se chama mais sono.
Essa seria a contagem regressiva se não fosse quase impossível dormir quando eu sei que você está acordada, porque você é a minha insônia.

Nosso ar

Quando a sua respiração termina, começa a minha. E quando a minha termina, começa a sua.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Alguém para se lembrar

Juro que não sei o que você fez das minhas noites. Sem você elas são intermináveis, trocam de lugar com o tédio, me pintam olheiras, e fazem do sono algo inquietante. Fico horas brincando de mudar de posição na cama, pensando em tudo, e tudo te tem de alguma forma. Minha cabeça fazendo joguinhos psicológicos, e o pretexto de olhar para o horário no celular e calcular horas de sono, é na verdade só para pensar quanto tempo mais vou ficar sem te ler.
Nunca estiquei tanto minha imaginação como nesses últimos meses. É de sentir meus lábios beijando suas pálpebras para que seu sono venha junto com o meu. Poder dormir sem dizer adeus, até logo, ou qualquer coisa parecida. Tão real quanto sentir seu cheiro no abraço mais apertado, abraço de saudade, saudade do que ainda não foi meu. É tanta imaginação, que me faz acreditar na morte do final no recomeço de começos. Juro que não sei o que você fez de mim. Certamente colocou uma etiqueta com seu nome dentro dos meus sonhos. São seus ou só sonho com você aqui, agora. Eu vejo que as vezes fica difícil de acreditar em mim. Então, apenas acredite em nós.

sábado, 15 de novembro de 2008

Pensando nela

Eu senti que faltava algo pela manhã, talvez um livro novo para ler, ou aquele seu beijo prometido de bom dia. A gente não escolhe por quem cair, e nem sempre dá vontade de escolher... a gente só cai.
E você pode até achar engraçado o jeito como eu quero estar perto sempre, mesmo de tão longe. E você pode até dizer que é fácil quando ainda não se tem um começo. Eu quero começar, quero mesmo.
Então, espere por amanhã, espere só por amanhã! Que eu faço desses dias de distancia uma corda para te puxar, te trazer até aqui... sem te amarrar.
Não sei por que, e preciso perguntar... era mesmo tudo tão previsível assim? Só sei que seria impossível deixar, só deixar como está.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Ao mesmo tempo

- Meu único problema é ficar longe de você.
- ... ficar longe de você.

domingo, 9 de novembro de 2008

Sem sono

Eu já sentia falta dessas noites de rebeldia, onde deitados sobre o asfalto, soprávamos o resto da fumaça do último cigarro para um céu sem suas estrelas. Nós poderíamos ir para a cama, mas sei que não dormiríamos.
Tem vezes que acho que perdi tudo a sua volta, que deixei de me encontrar com o sono. Minha voz não te diz nada sem minhas idéias. Será que você faz alguma idéia do que passa pela minha cabeça quando não estamos muito perto? Sei lá... tudo está sempre tão cheio de amor, que eu quase já não me sinto mais vazia.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Pés

Os pés dançando nos lençóis, os pés se encontrando nos beijos, nos abraços, nos encontros de braços, volumes de ar, resquícios de voz. Os pés que abrem a porta, nos levam para o quarto, e nos trazem de volta.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Nada vai mudar

Já fazem meses que eu acordo por você. De manhã a cortina rouba a cor do sol através da luz, e esse começo tem muito do seu nome. Depois, o café da manhã sou eu quem faço; o pão, a fruta, ou seja lá o que for para me libertar da fome, consegue imitar o seu gosto.
E antes de te ver, nas ocupações de todo o dia, se me pego distraída, é perdida em você. Ainda prometo descobrir se é a sua lembrança quem me distrai, ou se é a distração quem me leva os pensamentos até você. A questão é que fico pensando, e pensando... lembro de cada detalhe, qualquer coisa que me faça rir sozinha. Fico remoendo pedacinhos da gente e alimentando a saudade que cresce e continua crescendo até que meus braços estejam enrolados no seu pescoço.
Sei que são apenas poucas horas, no máximo um dia ou dois. Mas a falta me deixa agoniada de vez enquando, coisa que você resolve fácil com apenas uma conversa. Como pode ser tão leve, doce, aveludado, esverdeado, e caber perfeitamente dentro do meu coração apaixonado?

Eu me preocupo com qualquer idiotice, sinto sua falta antes do sono, e te durmo sempre dentro de mim. Isso você já sabe de cor. Mas prepare os seus ouvidos, porque enquanto for verdade, eu vou repetir, e repetir, e repetir... até que o dia não repita mais a noite, e a noite não repita mais o dia.

domingo, 26 de outubro de 2008

Vaidade

Marcelle tinha ido para o banho. A noite prometia ser ótima, e ela prometia se arrumar à altura. Eu já previa que ficaria no seu quarto por intermináveis duas horas. Sozinha com todas as suas coisas, escolhi dar uma olhada no seu diário. Abri bem no meio, em uma folha marcada por um clips que segurava a embalagem do maço de um marlboro vermelho.

"Tem vezes que o cigarro é o único que me acompanha, não perde o passo. Queima conforme o meu fôlego, queima o meu fôlego. Tem dias que é só ele quem me beija a boca e intimida a solidão. Odeio a solidão e, por isso, ao fim do último trago, enfim o salto do filtro ao asfalto, confiro o maço a procura de outro. Maltrata a minha garganta e os meus dentes, altera o meu perfume e a minha imagem, mas eu gosto mesmo assim."

Bom, ela gosta.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

De novo você

As nossas bocas juntaram e a cena ficou girando na minha cabeça, igual naqueles típicos filmes de romance, onde a câmera rodeia o beijo principal. O vento sempre levanta algumas folhas de outono, e os créditos começam a subir com alguma música lenta.
O quanto isso é real? Não consigo lembrar nem de quanto tempo passou, porque parece que sempre foi assim. Quando falo sobre isso me sinto tão idiota. Não sei se algum exagero veste a verdade de mentira, mas é isso, caí nas suas mãos. E vou continuar tropeçando até você.
A culpa é sua, sempre achei que você poderia ter resistido um pouco mais. Mas eu não. Jamais poderia ter continuado sem tentar. Eu nunca passaria a reparar no que os pássaros cantam. Não sei ao certo quem você é, a gente não consegue enxergar muito bem de tanta distância, só acredito no que você me faz sentir o tempo todo.

Previsível

É horrível ter que reaprender a se divertir sem beber. No mínimo decadente. A gente cresce e de repente se vê precisando das coisas. Não que seja por acidente, a gente sempre sabe. Eu, pelo menos, sempre soube. Mas aí vem um dia, como um outro qualquer, e te conta, como se revelasse o maior segredo do mundo: olha, você precisa disso, você precisa daquilo, você sente a falta. E eu preciso de uma porção de porções de coisas.
Antes eu costumava gostar até do fim das festas. Mas já ficou enjoativo. O salão de festa com o chão sujo, as cadeiras de plástico todas empilhadas em algum canto, e algumas rodinhas de pessoas conversando sobre assuntos desconexos. Uma risada sempre se sobressai no meio disso tudo, uma risada bem sem graça.
Já faz tanto tempo que nada mais do que eu vejo é novo. Caiu de velho como uma fruta podre. O natal é igual, o ano novo mais da mesmíssima coisa. Tanto que passei a ver os anos todos colados uns nos outros, se parecem cada vez mais com o anterior, e ficam se empurrando assim, como uma repetição mal feita. Nem o tempo eu distingüo mais. Tudo uma coisa só. Que seja.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Desapropriar

Apenas uma decoração. O braço dele sobre os seus ombros era apenas por decoração, porque os olhos dela me fitavam de cima abaixo, percebendo meu nervosismo e entendendo minha vontade em retribuição.

Ninguém tem a pretensão de fazer caridade. Na verdade, não convém querer o troco de uma relação má sucedida. Todos estão atrás das obras mais pleiteadas, da metade mais bonita de um casal. Não se trata de invejar a felicidade alheia, mas de provar para o próprio ego que se pode fazer alguém tão feliz quanto.
Jogar um copo contra a parede para assistí-lo espatifar, ou apostar parar assistir alguém perder, deixaria qualquer um livre de culpa, quando a culpa não machuca mais.

Só queria que fosse você

Isso é sobre um sonho que eu tive noite passada. Eu assistia você se vestir depois do banho, e a gente conversava enquanto você secava o seu cabelo. A noite a gente saía, e eu te abraçava e te beijava bem no meio da rua, sentindo sua mão na minha cintura. Era você mesmo porque eu conhecia seu cheiro. E mesmo a gente caminhando sem estar de mãos dadas, eu te tinha. Mas faltava alguma coisa. Talvez porque nada disso tivesse sido real.

Ainda não entendi qual é a conveniência de te querer tanto assim. Se você pudesse optar, me escolheria também? Porque eu te escolheria até na pior das hipóteses. Eu erraria muito por você, enquanto todos só estão preocupados em acertar. Porque diabos você significa tanto para mim? Se todas as vezes que eu abri meu armário não fossem procurando me vestir do jeito que eu acho que você gosta... é que sei lá, só queria que fosse você aqui do meu lado.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Grrr

Já parou para pensar nas chances que se perde por preguiça, negligência, ou simplesmente por piscar os olhos na hora errada? Digo isso porque resolvi insistir em provar que o amor não existe quando ele está bem aí, debaixo do meu nariz. Se eu pelo menos nunca tivesse sentido nada, ou quem sabe se eu fosse um robô e nem tivesse nascido... mas não. É como negar a chuva quando já se está encharcado no meio da rua por causa da água que caiu do céu.
Mas é tão injusto. Como posso querer entrar em um jogo sabendo que vou perder, e perder muito, perder você. Não quero.
Pior é que sei onde encontrar as melhores sensações. Droga, eu deveria me sentir tão sortuda, só em saber que às vezes preciso muito de alguém. Você me faz tão bem e disso não posso fugir. Nem se eu me isolasse por dias. Nem se eu desistisse de abrir a janela e ver o sol, porque sei que ainda assim te veria. Mesmo de olhos fechados e no escuro, te veria. Ainda ouviria sua voz no silêncio. Droga!

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Remorso

Vamos começar pela lua. Como pode ser tão grande e caber nos seus olhos? É um tipo de reflexo que eu queria em mim. E depois, é ela quem fica de lanterna para os nossos passos quando é noite. Nunca nem escondi que prefiro as noites, que prefiro esquecer a hora de voltar, que te prefiro quando o céu está escuro. Em pensar que as estrelas sempre vão precisar do céu apagado para brilhar, alheia a isto, mesmo quando já se fez manhã e estamos indo para nossas casas, a lua permanece mais algumas horas pendurada a cima de nossas cabeças.
Prender as mãos, mantê-las cruzando nossos pulsos. Tenho certeza que elas odeiam os postes e as esquinas complicadas que tentam separá-las. Mal consigo me importar se as palmas estão suadas, ou tremendamente geladas, enquanto simplesmente estivermos de mãos dadas. E carinho, carinho se mostra com mãos, com um leve toque, seja nos cabelos, no braço, na perna, nos pés, ou desenhando a forma do rosto. As suas mãos falam. Aquela mão tímida que quebra a distância de uma mesa para dois, atravessando pratos, copos e saleiros em busca de companhia. Aquela mão que me cutuca discretamente enquanto qualquer um fala, só para que eu saiba que pensamos na mesma coisa. Aquela sua mão que me aperta a cintura, que me puxa com força para levar a minha boca até a sua.
O seu gosto não me enjoa, não me farta, não tem fim. Decorei cada pedacinho da sua boca, você sabe, preciso dela ainda assim. Nossos lábios já tomaram um a forma do outro, do mesmo jeito que o travesseiro te acomoda a cabeça na hora de dormir. Eu gosto mais de dormir com nossos lábios colados, respirando o mesmo ar que te faz respirar. O mesmo ar que encontra meu ouvido e me faz arrepiar.
Não quero nenhuma porta fechada entre nós. Por isso te escrevi, só para me desculpar.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Dualidade

Vai parecer bem piegas, mas vamos lá: estou me sentindo estranha.
Cresce tanta confusão dentro de mim. Vejo-me claramente posta em um trampolim, e o arrepio que sinto não é do medo da altura, mas do jeito como as roupas de banho deixaram meu corpo tão vulnerável para o vento. Abaixo dos meus pés há duas piscinas para eu pular, e não se pode entender a profundidade de nenhuma das duas, tudo sempre fica pequeno visto do alto. Não quero mergulhar. Abraço forte e talvez nunca solte da inveja que tenho daqueles que apoiam-se na borda, ora aqui, ora lá, conforme lhes convém. E eu, que vou me afogar. Beber muita água e me afogar em apenas uma das piscinas por enquanto, acho que sou gananciosa demais para isso.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Ainda

Eram quase nove horas quando ele atravessou a sala com tudo. Bateu a porta de um jeito que fez estremecer todas as paredes da casa. Encolhi os ombros, serrei os olhos com o barulho, e senti estremecer até os meus ossos. Não me arrependi. Talvez ele nunca fosse entender mesmo, e eu não precisava que ele entendesse. Para ser franca, nem queria. Quem sabe se eu devesse ter corrido atrás dele, gritado seu nome, se pelo menos lhe desse um pequeno abraço que seja. Um abraço não curaria nada! Eu sei disso porque anos atrás quando eu saí batendo a porta, a última coisa que queria era a porcaria de um abraço.
Olhei entusiasmada para a janela toda molhada de chuva, sempre achei que ela ficava mais bonita assim. Uma folha de árvore, bem grande, grudou no vidro por alguns segundos. Aproximei-me e vi que era seca, então caiu. Logo voltei meu pensamento nele, aquele que fiz sair feito um furacão tão furioso que destruiria uma cidade inteira só para aliviar sua raiva. Grande bosta, ele caiu como a folha, e de tão seco que era não fez falta. Caiu de seco que era. E acredito que seria impossível calcular quantos quilos aquele garoto pesava para mim.
O cigarro ainda queimava no cinzeiro, em cima da mesa de centro. Eu o acendi logo que resolvi falar tudo de uma vez. Foi tudo isso o que durou a nossa briga. O fim de meses inteiros, anos contadinhos dia por dia, resumiu-se nesse meio cigarro queimado. Uma pena, deve ser para ele. Uma pena deve ser para os olhos daqueles que nos acompanhavam como se fossemos uma novelinha. Uma pena para os tios, os primos, e os amigos que nos azucrinavam nas festinhas de família. Uma pena também deve ser para aqueles invejosos que tinham o que invejar e agora não sobrou mais nada. Na verdade eu não me importo muito mais.
Abri a geladeira, eu sempre faço isso para matar o tempo. Agora eu queria fazer alguma coisa com o tempo. Estava ficando deprimida. Acho que meu egoísmo me pegou severo demais. Mas toda vez que eu pensava na boca que eu já havia enjoado, subiam-me náuseas. Era um desgosto só imaginar tudo de novo, todo aquele tempo que hoje está morto. E eu falando em matar tempo. Nunca matei tanto tempo estando ao lado de alguém. Exatamente assim, acho que estávamos apenas matando o tempo. Matamos belos meses, maravilhosos dois anos e poucos dias, doze horas e meio cigarro queimado. Bom, agora até o cigarro já havia apagado.
Fico pensando se algum dia eu o topar pela rua. Caminharíamos algumas quadras juntos, ele forçaria um sorriso escancarado e eu me encheria de tédio, mas seria bem agradável. Ele certamente perguntaria a quantas anda a minha vida, e comentaríamos de alguns conhecidos. Depois na esperança de me conquistar de novo, ele me convidaria para um encontro, só para quem sabe, algum dia, ter a chance de me massacrar como eu fiz anteriormente. Talvez eu até deixaria escapar um sorriso sincero. Nos despediríamos na próxima esquina e haveria mais um fim de um dia estúpido, daqueles que só servem para encher sua vida de horas.
Entretanto, se eu acabar por me apaixonar novamente por ele, seria por algum detalhezinho que eu ainda não fui capaz de enxergar. E aí, ele seria uma outra pessoa, tão nova quanto uma daquelas que se vê pela primeira vez em um bar. Porém, esse futuro nem sequer existe, e eu não quero que venha a existir.
A realidade é que eu já o troquei, por alguém bem menor que ele. Mas que se encaixa perfeitamente nessa porção limitada que eu sou. Os seus braços se parecem mais com os meus. Simplesmente fui correr atrás dos meus interesses.
Deitei no sofá, brincando com controle remoto da televisão enquanto paquerava o telefone. Eu tinha para quem ligar, só não queria ainda.

sábado, 23 de agosto de 2008

Ganância

Tudo parece estar tão perfeito que eu perdi até o direito de reclamar. Não seria justo, porém não consigo deixar os trilhos retos. Adoro uma tempestade sem que exista algo aonde eu possa me segurar. Às vezes chego a pensar que gosto mesmo é de me assistir desmoronada ao chão. Só que não, não estou assim. Estou feliz.
Não tive nem o trabalho de me preocupar com os enganos que eu poderia fazer. As decisões já foram todas tomadas, antes que eu me desse conta, das minhas mãos por algum poder do destino. Não tive escolha, apenas subi em uma esteira e esperei calmamente que ela me levasse ao êxtase de estar apaixonada, amar e ser amada em troca.
Mas com pesar confidencio que preferia errar, que gosto de correr e suar por isso, e que sinto-me inútil por perder a chance de escolher. Será que cheguei atrasada, ou simplesmente era assim que tinha que ser? Ainda quero, ainda espero por você.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Sobre o passado

Aquela cara de desastre vestia tudo a sua volta. Ela só gostaria de ter pípulas que carregassem toda a angústia para longe do seu alcance, num canto escondido bem no fundo do seu corpo. Sim, seria pedir demais adiar os problemas, pois tudo se acumularia de qualquer forma no fim. Não se pode esquecer uma decepção, não tão fácil assim.
Algumas músicas a empulsionaram escrever. Mas não cartas de amor, implorando para a sua felicidade continuar nos braços de quem sempre esteve. Ela mal conseguia assistir seu sorriso através do espelho - havia ficado muito amarelado.
Agora, só faltava aturar o seu pior pesadelo até que terminasse. Enquanto isso, prometia para as paredes de seu quarto e para os quadros mortos do corredor, que iria parar de chorar em vão. Porém, vãs, eram suas próprias promessas. Tudo bem, vai... pelo menos o escuro escondia a sua tristeza, e o futuro, mais tarde, a confortaria com erros engraçados. Percebe sua vida começando à partir desse não ardido? Sei que é difícil, mas tente entender: foi apenas a negação de uma escolha única; te sobra todo o resto. Já está na hora de cair em si.
- Ei, não volte para mim.
A liberdade se fantasiou de mudanças que ela ignorou por tanto tempo, que agora lhe corre pela espinha uma enorme sensação de vergonha. Que puta idiotice! Mas sempre dá tempo, tem que dar. Coloque os óculos, querida. Você já pode ver.

Alguma coisa

Não consegui dormir; tudo começa com a insônia. Então comecei a escrever uma carta - escrever me cura da nicotina - e pensar na bagunça que está a minha vida, eu nem sei como começar a descorre-la, o bom é que uma coisa costuma puxar a outra, até que tudo, esteja por fim, caído.
Dois goles de café, três folhas amassadas pelo chão, e o meu caderno ainda inteiro por completar. E depois, essa maldita angústia que não me larga! Só pode ser por causa do domingo, meu corpo não se acostuma nunca.
Hoje eu só quero vestir meu par de fones e esquecer de quem sou, dentro de quaqluer ônibus barato. Queria tanto que o tempo resolvesse parar nesses meus últimos meses, só até eu planejar alguma coisa.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Escolhas

Cada minuto que se estende até o outro me leva a crer que somos parte de uma sucessão de escolhas, escolhas que a gente nem sequer percebe. Escolhi meus amigos, e as ruas certas para levar meus pés. Hoje sei que meus passos me levaram todos até você. E agora sei que essa idéia que ainda bóia na superfície da minha lembrança, veio do refrão da última música que o meu winamp escolheu. Mesmo assim, juro que não escolhi gostar tanto de você.
Eu sinto essa fome corroendo meu estômago doente de ansiedade enquanto me concentro em algo que gostaria de te dizer. Me apoio dentro do primeiro ônibus cheio que passar e permaneço calada. Das infinitas músicas que já foram escritas e das centenas de melodias que se amontoaram na minha memória até agora, nenhuma se encaixaria entre nós tão bem quanto o silêncio que sonho em rechear de olhos fechados. Preciso de você mais perto, a fim de ouvir meu coração batendo com pressa, me ajudando a juntar ar para o fôlego de um longo beijo.

sábado, 9 de agosto de 2008

Saudade de sentir saudade

Gosto daqueles dias de garoa chata que insiste em não sair do céu, daqueles dias cinzas de quase sem cor, dias de cobertor e filme antigo. Gosto daqueles dias final de férias que dá saudade de sentir saudade. Não me lembro o que me fez amar tanta gente, não consigo me lembrar de como era ter o coração partido ao meio.
A gente nunca deixa de ser besta, mesmo depois que cresce um pouco e acha que já viu de tudo. Como é que eu posso estar insatisfeita e sentir a falta da dor, da fossa de entender todas as músicas de amor? Justo agora que tudo aquilo já passou.

Percebe?

Você tem sido pior do que pegar o ônibus errado para lugar nenhum. Os nossos planos tem sempre essa cara de desastre, que eu adoro só por ser tudo o que temos. Acho que esse lado b que criamos das nossas vidas está ficando perigoso de mais, os últimos meses passaram tão depressa e não mudaram nada. E a gente ainda fica se levando pelo acostamento de uma larga estrada de ilusões sem se preocupar com o que sobra quando resolvermos cair na real. Quanto a isso, eu já lavei as minhas mãos. É obvio que não sou eu quem quero me responsabilizar pelas decisões, muito menos você. Falta-nos a maior parte da coragem.
Sabe, você pode me contar suas milhões de histórias sobre seus sentimentos e vontades que eu vou continuar duvidando de que não sou eu quem faz o papel de idiota aqui. Estamos apenas de passagem, mas confesso que adoro me deixar enganar por você, e sei que você gosta muito disso. Mentir é tão fácil, ouvir é mais ainda. E além do mais, não estou pronta para apanhar das nossas verdades por enquanto. Vamos deixar assim, vai.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Sem justificativas

E daí que eu ainda levanto cedo, que calço meu tênis as seis da manhã, visto uma camiseta amarelada e caminho atrás de um ano de atraso naquela que deveria já ser a minha antiga escola? Eu não ligo a mínima para o que pensa aquele monte de aluno que está na sua chance certa. Tá, talvez eu até sinta alguma inveja medíocre, insignificante. Pode até ser que as comparações com meu irmão mais velho - que realmente existem - e aqueles olhares de decepção que meus pais despejam em cima de mim sejam exagerados pela minha cabeça, alguma medida desregulada de desconfiança. Ou, quem sabe, o inferno de olhar para o espelho e se decepcionar.
Depois do almoço eu sinto a prévia do sabor que teria aquele que seria o meu futuro. Isso mesmo, aquele que deixei escapar pelas mãos, que escapou com as cochiladas, com a desilusão de se achar adolescente de mais para levar alguma coisa a sério. Vou pulando a partir daí, de galho em galho, sonhando o sonho dos outros, porque até a intimidade com o meu, eu fiz questão de perder. Mas pode deixar que eu o encontro de novo. O objetivo é aquele que eu rabisquei bem grande na porta do armário, para me encher de fé sem religião, de gana toda vez que troco de roupas, toda vez que vou sair de casa.
E daí que a fumaça faz mal, que intope os meus pulmões, que amarela os meus dentes? A falta de aventura é o que mais provoca deslizes e acentua a ausência da prática. Não quero justificar um vício com a possível falta de sorte que alguém pode ter morrendo em um acidente. Simplesmente não quero justificar meu vício. Podem acreditar que ele supre uma falha na minha personalidade, que é algum tipo de adereço, ou até mesmo culpa da ansiedade. E se for, que seja.
Qual a quantidade necessária de perigo para uma pessoa se sentir de verdade viva? É algo que não se mede, e querem controlar muito a nossa vida - a minha vida. E se eu resolver arriscar o meu oxigênio? Aposto sim, aposto que vai chover amanhã, aposto que vou enjoar de muitas pessoas, e aposto que posso estruturar meu futuro em um castelinho de cartas de baralho. E se por acaso desmoronar, a gente tenta algo novo. As coisas vivem mudando. Então me diz, porque seria diferente para mim?

Para um dos meus fantasmas

Isso soa como idiotice, mas ultimamente eu tenho me imaginado de frente com você, tocando no violão suas músicas favoritas. Será que você desviaria o olhar se eu cantasse para os seus olhos? Não sei tocar violão.
Queria já estar acostumada com o barulho que você deve fazer quando coloca as chaves em cima da mesa, ou saber que você chegou de ouvir o som da porta bater. Mas nossa rotina não se cruza dessa maneira.
Acho que nunca te contei, mas eu ainda acordo de madrugada procurando seu cheiro nos lençóis. É que o seu nome ainda não consegue me descrever seu perfume. Tem noites que paro pensamentos em como eu gostaria que meu travesseiro fosse seu peito, porque nessas últimas semanas, eu tenho dormido de lado só para que você caiba na minha cama.
A verdade é que paralizo toda vez que passo por alguém que tenha nos cabelos e olhos a mesma cor dos seus. E quando já nunca te esqueço, todo canto me faz te lembrar, você cabe em todos os lugares. Bem que poderia estar aqui para apagar as luzes e beijar a minha boca.
O que será que você faz enquanto escrevo? Tenho inveja de qualquer um que te conquiste a atenção, e tenho ciúmes de todos os seus sonhos. Tenho raiva daqueles que te querem, e tenho vergonha de admitir. Tenho muito medo dos seus planos e de não estar neles. Tenho tanta sorte de me sentir como sinto, mas sei também do azar que é não poder te encaixar aqui comigo. Tenho pensado bastante em nós e no que - ainda - não somos. Odeio estar tão apaixonada, mas é o que mais me faz sorrir.

Desabafos de meia noite

Parei mais uma vez de escrever aquela história. Às vezes eu sinto que essa história é a mais comprida da minha vida, porque não tem fim. Não sei se posso mesmo terminar alguma coisa, ou fica apenas na vontade. Faz tanto tempo que a preguiça tem vencido até meus maiores sonhos.Voltei a fazer academia, essa é a parte boa desses últimos dias. Amanhã, pretendo acordar bem cedinho. Vou voltar para o cursinho também. Preciso entrar na faculdade, fazer letras. É a única coisa que eu gosto, ou pelo menos é nisso que eu acredito.
Meus textos têm me cansado. Sempre curtos, sempre impessoais e universais. Sempre de sentimentos mais intensos do que o real. São até diferentes uns dos outros, mas todos têm aquela mesma linha de pensamento. Eu quero algo maior, algo que continue, que seja extenso, do tamanho do que sou capaz. Ô tristeza que me pega de vez em quando. Uma voz baixinha me cochichou que não sou capaz. Não quero acreditar.
Sinto falta das cartas de um amigo, sinto saudade de como uma pessoa que mora tão longe me fazia sentir, sinto falta das risadas que eu tinha na sala de aula com as meninas, estou morrendo de saudade da minha melhor amiga, sinto falta do cheirinho do meu namorado, e estou com saudade de outra pessoa também. Acho que estou carente. Que viadagem :~
Sexta-feira tem jogo de sorte e azar. Essa é a única saída que eu vejo, e também a última. Preciso de dinheiro, um apartamento, um carro, uma vida mais turbulenta, essas férias me cansaram de nada. Preciso de uma vida que meu lado ariano domine mais que o pisciniano. Preciso cair das nuvens e pisar no chão. Assisti um filme ótimo hoje que mexeu tanto comigo, principalmente quando uma das personagens está deitada na cama com o amigo dizendo que já tentou escrever, que já tentou tirar fotos, e que toda garota passa pela fase fotógrafa tirando fotos bobas do próprio pé.. mas eu só me arrepiei quando ela disse "estou estagnada". É, estou estagnada.

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Orgulho

As mesmas cartas abertas, as mesmas palavras lidas e relidas. Minha dor de cabeça não descansa, e piora com o álcool que tem mania de deixar tudo maior. Garrafas de vinho vazias e outras duas linhas mal escritas por um sentido que até você já deixou para trás. Nossas fotos esparramadas pelo chão dividem espaço com lágrimas e o meu coração roco de tanto gritar pelo seu. A gente sente tanta falta um do outro, mas não se admite.
Nunca vou entender tudo, eu sei. Como é que você consegue fingir tão bem? Quem te ensinou a me machucar tanto assim? Os seus motivos são os mesmos que eu teria se estivesse em seu lugar. Mas eu não estou, e não existe justificativa que sobreviva apoiada em algo que não nasceu.
Enjoei de me distrair. E essa dúvida não pára de cutucar a minha insônia. Há semanas que não durmo antes das cinco. Só para não boiar na angústia, eu quero dias mais curtos.

Ciúme

Eu quero matar o ciúme, aquele que me coloca na frente do espelho para que eu veja minha cara de idiota enquanto enciumada desejo alguém que já tem seu par. Mato também aquele ciúme que julgo tão bobo e que quando sentido pelo outro, rouba meu espaço e furta o ar refugiado em meus pulmões, me sufocando de dentro para fora. Morte ao ciúme doído, que como as traças vai esburacando as relações com sua fome enorme de desconfiança. Esse ciúme que desgasta carinho, esconde amor e cansa os ouvidos, não combina comigo, não combina com você.

domingo, 20 de julho de 2008

Brincando de ilha

Perco o contato com pessoas pela preguiça que tenho de relações estreitas. Muita intimidade me sufoca, já que tenho o costume de não ser tudo aquilo que sou por pouco tempo. Não consigo ser agradável a todo o momento, mas também não sei ser diferente. Então - por mania - corro para qualquer lugar distante, aonde desapareçam os contatos. Até a subjetividade tem me cansado ultimamente. Olha que ser direta não significa ser óbvia!
Eu gosto do que é único. Do que surpreende por ser inusitado. Quero me apaixonar por rostos porque nunca mais os verei, e sentir saudade dos dias porque nunca mais voltaram. Quero fugir da rotina, do comum, do habitual, do que bóia na superfície dos outros. E tenho medo das correntes que trancam círculos sociais, porque me fiz livre.
Sou assim, apenas de quem quero ser.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Voltas

Apenas sobreviva as perguntas e deixe as respostas para depois. Não me entedie dizendo o quanto a gente não pode, mas mostre-me o que consegue. Vai, não há porque não apoiar-se em mim, desde que prometa-me não pular fora da gangorra - não aguentaria cair se não fosse em seus braços. Estou me perdendo, cada vez mais, perdidamente alguma coisa por você. E essa sua teimosia? Minha vontade é força, não se engane.

domingo, 13 de julho de 2008

Ele me escreveu

Ciúmes do teu travesseiro
que apóia teus sonhos
e suaviza teus pesadelos
que enfeita tua cama
e esconde teus segredos
que absorve tuas lágrimas
e respira teu cheiro
que sabe seus horários
e esconde tuas ausências
que dorme e acorda contigo
que engole tua raiva
e sente teus sorrisos
que abraça teu rosto
e marca teu cabelo
que decora tuas músicas
e te espera sair do chuveiro
Hoje a noite finja que não
sabe, e por favor não diga a ele
mas eu tenho muito ciúmes
ciúmes do teu travesseiro.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

O melhor/pior dia da minha vida

Minha mente maltratava meus joelhos, e os passos eram rotineiros, escravos de ordens que nem passaram pela minha autorização. Os vómitos de euforia traumatizavam meu corpo enquanto deliciavam meu desespero. Eram apenas os meus olhos que choravam, juro. Pensamentos brilhantes presos em um coração debilitado faziam o sangue voar dentro das veias, endurecendo minhas mãos como pedras de gelo. O único frio era o da febre que conquistava cada vez mais a nuca. A Insuficiência respiratória não era problema. Os pés, mais uma vez, não pediram permissão, eram como a linha de produção que não pára nunca, eram duas ordens do meu cérebro, empregados da excitação que passava por cima da realidade. Eu sabia da dor, mas não a sentia. Não existia medo.
Sempre achei o peixe tão inútil e insignificante, que agora posso compará-lo a mim. Nunca desejei tanto em toda a minha vida que eu conseguisse dormir de olhos abertos, pois era um esforço imenso descer as pálpebras, eu podia ouvir os demônios rindo da minha cara pálida enquanto puxavam-nas para cima. Eu tinha dó da dó de sentir dó própria.
Estava totalmente falida, acompanhada pela insônia, com as luzes apagadas para que o claro não cansasse ainda mais a minha cabeça. As náuseas voltaram umas milhões de vezes naquela noite. Então, quando descobri que sussurrar aliviava o mal-estar, supliquei para a parede gelada, o teto, o estrado da cama, os lençóis... que me abençoassem com uma outra chance. Um peixe não! Não um peixe! Tornaria-me exatamente o que mais me enraivece. Perdi a consciência.
O sol arrebentou o céu, e os meus defeitos enumerados pela boca da minha mãe despertaram-me. Senti fisgar algumas dores abdominais, mas mesmo assim, fingi que dormia, que não ouvia. Afinal, estava feliz demais só por ter acordado.

Ele escreveu

Todos já sabem, odeio as horas, mas eu amo o segundo em que você vira a esquina e sorri.

Gosto do seu cheiro.

Comece uma frase... e eu te digo outra vez mais, tudo bem, tanto faz.

- Olha! Uma única estrela no céu. Faz um pedido!
E lá vou eu, pedindo qualquer coisa que logo vou esquecer.

Olhos castanhos padrão, e você sabe que eu gosto assim.
Não existe tempo e só a distância não é nada.

São 18:18.
Faz um pedido.

Fico distraído às vezes.
Esqueço onde estou.
Penso em nada, mas em um nada bom.

Fica bem, estou bem.
Você faz tão bem.
Você me faz tão bem.

Odeio espirros, odeio guarda-chuvas.
Não gosto de loiras, nem de olhos claros.

Um copo meio vazio

Estou seca - disse ela - seca de palavras.
O álcool começou a conquistar as veias, logo menos, alcançaria o sangue. Olhou para a rua na frente do bar, como se pedisse ajuda muda com os olhos, e o mundo não quis parar lá fora. Um rapaz passou de skate tão rápido que não se percebeu os detalhes.
Mas ele usava uma boina bege - pensou ela.
Um brinde, dois, três, quatro garrafas. Todos às drogas, ao sexo, ao amor inexplorável, inexplicável, inesgotável... ela ainda sofre com a falta das palavras. Onde foi parar sua prática? Os pulsos tremem, é o coração pulsando forte.
So hard! - ela grita, ninguém ouve, ninguém liga.
Tropeça em goles, tragos, estragos. O buraco que ela cava não é tão fundo quanto sua cova, levariam outros tantos anos. Vamos deixar que o passado cante por ela as músicas que ela gosta porque ele adora. Só ele, e ele, e ele (...)
Depois outros tenis sujos de barro marcarão o mesmo caminho, abraçando o destino cansado e as mãos suadas. E ela só parará quando o sol desistir de nascer.
Ela sabe, mesmo que neguem e contestem: as melhores palavras ainda estão com ele. Quanto ciúme por nada! Ou tudo! Um perfeito que o mundo de garotas querem devorar. Nasce o orgulho. Se ela ficasse rica em um mês não saberia como gastar sua riqueza, e mesmo pobre, sente-se exatamente assim. Acontece que ele colore o mundo cinza dela, poluído, cheio de ruído... tudo que coloca charme no urbano. Ela vai escorregar nas roupas do rapaz de perfume unitário. Ele é ele e mais ninguém.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Devaneios

O barulho das chaves me avisam de você, e aquele susto bom vem me visitar com um sorriso. Seus passos, sua sombra perto da porta. Vem! Pula na minha cama! Amanhã é segunda-feira. Amanhã poderia nunca chegar. E quando chega, te carrega para longe de mim.
Depois, se por acaso garoar, vou vestir o cachecol que você esqueceu na minha casa, só para te ter de cheirinho enrolado no pescoço, esquentando as cordas vocais para aquele alô caloroso, a gente combina de durante a semana tomar frappé feito criança, esnobar as pessoas da rua e queimar dezenas de cigarros. Queria que seu cheiro nunca saísse de perto do meu nariz. Que morressem as noites que eu passaria no singular, que diluíssem todas manhãs que eu acordaria ao lado de travesseiros e que explodissem as tardes que eu ficaria de amiga da televisão.
Aí, você vem me buscar de carro roubado - ou comprado com a sorte de cartas na mão. Buzina e toca a campainha, faz tocar os sinos e as trompetas... você simplesmente me beija.
Para apagar o fim, a gente se promete não olhar mais para os relógios desse mundo - pior invenção - e assim, param-se os minutos. De portas fechadas, a gente dorme. Por favor, destruam os despertadores.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Para desistir

Sinceramente eu não sei o que pode ser feito. Sei que a muito tempo, algo emaranhado dentro de mim foi desfeito, por despeito seu. Livrou-me tão perfeitamente de um amor que começou torto e continuou crescendo assim, fim. Mas e aí? Preciso de garantias, precisava disso. Eu tenho, e pretendo continuar com elas, como um amuleto ou quem dirá uma bússola. E elas dizem para eu ficar aqui, exatamente aqui. Então meus olhos, meu corpo, minha cabeça pedem cama, descanso da distância.
Olha, eu não alcanço aonde vão meus sonhos. Quisera eu aprender a estar em dois lugares ao mesmo tempo. Ah, mas talvez se eu tivesse uma escada, escolheria a escala da sua cidade e escalaria seu coração. Sabe que eu odeio ter as mãos atadas para te provar as coisas enfeitadas que vivo dizendo? Isso quando justamente estou sendo tão eu. Mesmo sem esperanças - ou assustadoramente cheia delas - continuo esperando.

Faz o favor de tomar no cú?

Bom, de repente eu preciso disso. Não sei nem mais se sou igual a todo mundo da minha idade, na verdade, só não gostaria de me sentir igual a eles. Tudo faz parecer que nós somos os erros. A minha rebeldia é como uma peça de roupa que alimenta a vaidade. É tão relativo, como determinar o certo e o errado para uma criança, tomando o único escudo que a defenderia. Existem nãos tão estúpidos, que certamente são ditos apenas para testar alguma voz de comando. Não reclamo de escutar pouco sim, preferia até não ouvir nada, ou quem sabe uma simples opinião.
Minha garganta continua existindo para empurrarem goela abaixo os vómitos de meia idade. Mas não sou apaixonada pela minha voz, tão pouco pelos meus dentes para conservar minha boca escancarada. Com ela fechada eles perdem mais. Fico muda. Levanta a mão aí quem realmente me conhece. Oi? Alguém? :~

Entrelaçado

Mais uma vez a árvore serviu de apoio para o cotovelo dele. Lindo, sempre lindo! Esperava-me logo de manhã, em frente a escola. Aquele sorriso que se sorri de longe... dezenas de garotas nunca conseguiram alcançá-lo, como eu pude ser a escolhida?

Foi tudo culpa da cidade, é o que acontece quando não se tem nada para fazer. Depois de jogar meses pro alto e adiar algum compromisso, eu decidi parar de esperar por uma frase que ele nunca diria. Eu disse.

Jaqueta preta sobre uma camiseta branca, jeans justo, cadarços por amarrar, e um olhar de malandro chorão me convidando para uma volta. Eu fugiria para a Flórida com um garoto desses, sem dinheiro e sem adeus, abraçaria alguma estrada e dormiria no capô do carro. Mas guardei essas besteiras em alguma gaveta do meu cérebro, e segui nossas sombras em silêncio.

Só que depois vieram as cobranças, um vício é uma dívida, uma dívida que se deve para si mesmo. As noites duravam menos, e eu esperava que elas durassem para sempre, para que os amanhãs nunca fossem tarde demais. Duraram o nosso preço, enquanto nos desvalorizávamos. Sempre é tarde demais quando não se tem nada.

Fez uma cabaninha com a mão para que o vento não apagasse o fósforo, e acendeu seu cigarro falando da cor dos meus cabelos. Antes que desse a primeira tragada, já me tinha completamente apaixonada. Sua boca era uma tela que eu precisava pintar com meu batom.

As pessoas, as desnecessárias pessoas. Pesavam nas nossas costas, colocavam seus calcanhares sujos em nossa direção, nos freiavam com tropeços. Sobrou no resto de qualquer amor próprio o egoísmo. Foi aí que esquecemos um do outro.

Olhou pra cima, instântaneamente olhei também. Dizia estar procurando algo, rodiava em volta das árvores, andava rápido pela grama.
- O que é que você tanto procura?
- Eu perdi, perdi um beijo. Me ajuda a encontrar?
Então ele me deu um beijo.
- Encontrou?
- Não, não. Preciso procurar melhor...

Abafei o grito e as lágrimas no travesseiro. Já estava feito. O amor estava desfeito. E eu que sempre achei que as portas fossem feitas para atravessar as paredes, me tranquei no quarto. Luzes apagadas, fiz questão de cobrir com o edredon a própria cabeça. Como esconder a vergonha se ela se esconde comigo?

Continuamos nos beijando por toda a tarde.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Em baixo das árvores

- Você está bem?
- Estou com você.

domingo, 15 de junho de 2008

Um único parágrafo

Quando fogem as palavras da boca e os sinônimos não dão conta do significado verdadeiro; na falta de coragem, ou de voz; na ausência física, na ausência de destreza no improviso, ainda sobram as letras. A diferença está no poder de planejar, na estratégia de colocar as palavras certas na sua ordem favorita. É como medir a reação dos outros e determinar o que seus olhos poderão ler. Escrever é como filtar idéias.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Prefácio

Do melhor que eu posso te dar, do que de melhor eu tenho em mim. Peguei das coisas que eu mais gosto de fazer, e nos fiz assim: nos transformei em um livro, para que a nossa filha e mais qualquer outro alguém que deixarmos de herança nesse mundo, nos leia. Para que possamos viver juntos para sempre, com nossos nomes escritos um ao lado do outro, porque as palavras, Natanael, nunca morrem. Resolvi colocar aqui também os textos ruins, confusos e pessimistas, porque sou assim e nada do que eu senti merece ficar para trás. Você já sabe da sua importância para mim, e sabe também que a perfeição é um conjunto de imperfeições na ordem certa. Então, espero que minhas piras, neuras e dissabores do passado não o intimidem agora. Aqui é tudo seu, meu e nosso. Minha vontade é de me confundir com você para ocuparmos o mesmo espaço e olhar do mesmo par de olhos. Mas por enquanto ocuparei as mesmas páginas - um dia amareladas - com você.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Nós

O dia mais longo da minha vida começou com o nosso segundo primeiro beijo e ainda não terminou. Talvez por isso que eu goste tanto de ver seu pulso livre de relógios. Então ninguém vê que reeducamos o tempo a nosso favor, que nosso silêncio não constrange, e que as horas são apenas um quadro abstrato que observamos na parede da vida dos outros. Nossos passos são dados por fora do trilho, nossas mãos são dadas, gêmeas siamesas, grudadas. Nosso chão é grama, nosso céu é homogêneo visto da praça. Os seus, os meus amigos se confundem em nossos. Nossos planos, nossos sonhos, nossas viagens, nossas compras, nossos erros, nossas loucuras, nossas idas, vindas e vidas. Nossa esquina do lado da banca de jornal. Nosso canteiro atrás do supermercado. Nossa cidade do terraço do shopping. Nossa cafeteria. Nossa revistaria. Nosso banheiro. Nossa praia esperando por nós. Nossa filha esperando por nós. Nosso apartamento esperando por nós. Por fim, um casal, uvas e uma pequena fresta de luz.

domingo, 1 de junho de 2008

Vergonhoso

Que vergonha, a maldita torcia para que ele tivesse a mesma sensação de falta que ela. Seu corpo pedia mais um pouco de velocidade artificial. Procurava nos assuntos proibidos uma maneira de construir sua armadilha. Eram com cutucões e alfinetadas de indiretas que pretendia pendê-lo para a tentação. Ela não havia se cansado, muito menos sentido o perigo soprar sua nuca, ainda era apenas um calafrio usual de dias gelados. Mais um cigarro, pensou, acendendo mais um cigarro teria tempo suficiente para atravessar o espaço que separava os pensamentos dela para os dele. Ele tinha que ganhar no silêncio a cura de um mal psicológico, antes que o psicológico se tornasse físico. Essas idéias que ela carrega são os inimigos. Esqueça-as, que vergonha!

Ponto de ônibus

- Frio, né?
- É, mas se parar de chover e garoar, esfria mais.
- Ah, mas o frio é bom, o problema é o vento, né.
- Uhum, só que fica tão triste assim.
- Sim, fica cinza, amoado...

Hipocrisia

Tão patético, mas vou criticar o espelho que varia dos dezesseis aos dezenove anos.

Sempre mantendo os pés parados, mesmo com a música pulsando algum rítmo por dentro. As bocas avermelhadas pela pouca idade, é casa de fumaça e conversa vazia, enfeitada por radicalismo. Nada é triste, nada destrói. A armadura feita de jeans é resistente demais para que alguém descubra a inocência convertida. É a era do asfalto, época de andares iluminados. O show mais bonito é o desfile das idéias mais bem formadas nas roupas modernas; modernidade essa que está no passado. Não se percebe a regressão, um passo a frente para a morte. Os cabelos, os significados e os sapatos são intocáveis. Mas não há cabelo que idealize um futuro, não há significado para marionetes, e por fim, não há sapato que calce a humildade. Talvez eles escutem uma canção e se apaixonem pelo resto do dia.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Tráfico de meses

Deitamos no chão vestido pelo verde mais lindo que meus olhos podem ver, ainda é a nossa cama. E como as notas de piano que combinam com a perfeição, o seu carinho combina com a minha felicidade.
Pegue o que quiser de mim. Desse meu diário de loucuras, há uma história na nossa distância que se intitula saudade. Vou dizer algo sobre nós dois, somos analfabetos de avisos de cuidado, e mesmo assim, as coincidências insistem em andar ao nosso lado, tomando as nossas dores. Mas se errar não fosse tão saboroso, eu juro que não dividiria isso contigo. E já que a nossa tolice de evitar a realidade não faz de nós mentirosos, queimaremos a cidade mais movimentada com nossos sonhos de riqueza instantânea. Sempre haverá uma garrafa de vinho vermelho para dois apaixonados.
Pensar é melhor em dois, casando nosso futuro e já cuidando da nossa menina. É tudo uma questão do agora; o tempo é um só, sem intervalos e tudo acontece numa linha enorme. Vamos rasgar os dias, as horas... hoje eu tenho você comigo e todos os milhões de minutos de vida que nos restam logo a frente.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Eu ainda chego lá

Isso porque vocês ainda nem conhecem o pior do que eu posso ser. Tudo o que eu quero é uma respiração um pouco mais funda, sentindo o vento da minha vida correndo por entre meus dedos. Mas estou sempre errada, sempre correndo do lado contrário para o oposto. Ninguém vai me obrigar, escutaram? Ninguém vai me obrigar a ver formas geométricas e contas sem resolução. Sei muito bem que meus passos não são exatos. Só que porra, eu já cansei de dizer que cansei de fazer planos! Não quero, não vou planejar meus anos bem-sucedidos. Porque eu mal posso esperar para perder a hora de chegar em casa depois de um dia bom, "gastando" a tarde para assistir o sol se exibir. Não me esperem, eu ainda vou demorar mais um pouco.

Ah, e não achem que eu estou pretendendo chamar a atenção dos seus ouvidos, e muito menos ser o mérito do orgulho de vocês, como um quadro que se prende na parede para contemplação de mal amigos. Eu quero mais, ou menos.. tanto faz. Mas a questão é que serei sempre eu, em personalidade e caráter.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Sorte ou revés

Atravessei a rua e passei na frente dos carros, foram os faróis que deram cores às coisas que enxerguei na minha frente. Pulei de um prédio só para balançar os cabelos no vento. Troquei alguns meses de vida por sensações. Fiz amigos de problemas. Gosto mais das coisas que só acontecem quando não estou presa dentro de casa. Protegido ninguém se apaixona pelo perigo. Acontece que de repente eu passei a perceber apenas a parte mais interessante das pessoas. E não importa se por acaso a porta entre aberta me contou o que algumas pessoas pensam sobre mim. Azar de quem não entende. Mas eu sou mesmo a favor da diversidade!

Afinal, não é por causa das diferenças que existem as comparações? Eu jamais destruiria a diversãozinha de vocês. (Y)

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Tempo perdido

Os olhos cansados não dão trégua, e o cansaço faz que rola na cama, te cutuca, te chama para acordar, acordar sem nem ao menos ter dormido. É o tempo perdido; no escuro de becos intravenosos, em sussurros e suspiros de batimentos cardíacos, nas palavras esperando por não serem ditas.
A gente se cala na poeira, se mantém em desuso. Mas se apaixona por planos jogados nas calçadas, pendendo entre as valetas da rua. Que infantilidade querer chamar a atenção de nós mesmos para estímulos de pseudo-vida e falsa liberdade. Pois falta sono e sonhos palpáveis, litros de cafeína e quilos de nicotina que poderiam se tornar a cura da ansiedade.
Mas deixa que eu me resolvo na distração da tentativa de descrever o gosto do céu onde você me tem levado durante todos esses dias, e gastarei a eternidade tentando dizer o que assisto nos seus olhos. Preciso da sua certeza de me ter em seus braços por todos os seus amanhãs.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Só mais um, e único

Saiu sem nem ao menos terminar o café. Alcançou o banheiro, e lavou o rosto. Procurava em si defeitos, enquanto se via no espelho. Desistiu. Eles eram os culpados, homens não moldados para ela. Não se despediu, deixou a conta para o coitado da vez pagar e ganhou a rua. Os prédios formavam o cenário urbano para o resto dessa história. Caminhava pela calçada. Dentro das buzinas e do barulho de motores, ouviu um murmúrio, e talvez fosse exatamente como tinha que ser feito, o fato é que ela não deveria ter se virado para trás. Ainda assim, acreditou que foi no momento certo. Não tinha a idéia de onde ele teria vindo nem de onde gostaria de chegar. Ninguém diria se estava sozinho ou simplesmente desejava estar por conta própria. Pois existem tantos cabelos escuros como esses por aí, pares de óculos vazios de um olhar sincero, que fácil seria ser diferente. Em todo caso, o rapaz reclamava com o esqueiro que não acendia o seu cigarro. A noite de lua cheia, quis ser a mais quente do ano. Foi nela que o padrão chamou a atenção, vestido de preto no branco, ele morou por minutos na discrição de uma sombra. Por fim, era só mais um, e único. E ela animada, resolveu fumar um cigarro com ele, dividindo o seu próprio fogo. Chamando para o começo de uma conversa, se mostrou o mesmo museu aberto de histórias que ela já havia decorado. Pena que a poeira irritava sua atenção, e justo ela, que só saiu de casa na esperança de algo que pudesse ser mais novo do que o dia seguinte. Mas eram todos iguais. Diferenciavam-se apenas pelos nomes, não passavam de palavras diferentes para um mesmo sentido. Largou o sujeito falando sozinho, da mesma maneira que o encontrou. Tomou o caminho de volta para o espelho do armário, em seu quarto. Olhou-se bem, fixamente, pela última vez como ela. Queimou seu guarda-roupas e mudou-se para que o mundo mudasse em sua volta. Vestiu-se deles. Fez-se só mais um, e único. Tranformou-se naquele que sempre procurou, e agora só faltava se encontrar no corpo de outra mulher.

domingo, 18 de maio de 2008

Enquanto isso, não me acorde

Encosta na insônia, ela traz uma música triste para consolar o seu passado. Um dia suas mãos crescerão para agarrar algo maior. Enquanto isso, não me acorde. Sim, fragilmente ela te levará para qualquer lugar, e quando você dormir se sentirá menos sozinho. Enquanto isso, não me acorde. Levantou-se suado, foi meu querido? O pesadelo te fez notar a falta do cobertor. Por isso lembre-se de que a janela aberta liberta o frio. Não feche as portas, mas apague as luzes, e enquanto isso, não me acorde. Seus pés gelados o acorrentaram desperto, e o cobertor só
mantém o calor já existente, não é mesmo? Saia do quarto pela manhã, o mundo é maior do que essas quatro paredes brancas. Enquanto isso, não me acorde. Quando foi a última vez que te fizeram desistir da garota dos seus sonhos? Bobagem, se nos sonhos ela pode ser sempre sua. A cafeína te afasta o sono, não deveria ter exagerado no café. Mas te sugiro recorrer à televisão, ela geralmente ajuda. Enquanto isso, não me acorde. Depois que a fome alcança a barriga, e a sede vem até a boca, a cozinha se encontra longe demais, aí a coragem de se despedir da cama se afasta tão rápido como se nunca tivesse existido. Eu sei que você vai continuar estático, mas enquanto isso, não me acorde. E então vem o mais talentoso ritmista, o tempo, aquele que te rouba a noite e sem adeus te devolve o dia. Vai, aperte os olhos, a luz irritadiça vai te pertubar até que esteja por completo em pé. Viva, e enquanto isso, não me acorde.

sábado, 17 de maio de 2008

Seis mil quinhentos e setenta dias

Deitada no assoalho, molhando a manga da blusa com dores de cutuvelo, dormiu. Afastou os pensamentos das noites de festa em avenida movimentada, dos abraços com cheiro de confiança, das rodinhas de violão com músicas repetidas. Desfez os sorrisos falsos. Chorava a nostalgia, e a falta de tato que tinha o passado. Era a perda, não de uma pessoa, mas de muitas personalidades. Reclamava o começo de um fim, gritava o distanciamento da juventude. Primeiro foram lhe tirando o chão, depois lhe foi imposto um teto. Os joelhos que já não funcionavam mais, dobraram e cobriram a barriga. Por horas, ainda ao assoalho, ficou em formato de feto com os olhos vendados pelas lágrimas. Abafou a respiração e passou a rir, num ponto de desespero. Deu-se conta que outra menina sentará no seu lugar, abraçará seus outros amigos, cantará as mesmas músicas e vai rir das mesmas coisas. Ninguém é insubstituível por tanto tempo.

domingo, 11 de maio de 2008

Para ele

Cansei meus olhos com seu rosto.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Te quero dentro de mim

O vento levou os pingos de resto de chuva para longe daqui, te contou pro acaso, e por culpa dele, se soltou todo o amor que eu amarrei no travesseiro. Enquanto seu vício te perdia com os novos amigos do centro da cidade, eu te esperei no toque do telefone. Precisei fazer de você a minha garantia. Então, adotei contigo aquela amiga que consertou tão superficialmente toda a dor que ficou distante. Tolice, se não existe dor no padrão dos nossos olhos. Porém, só esqueço quando você me fala dos seus sabores favoritos e das suas cores preferidas. Aí, peço para que venha o inverno só por fora. Julho não verá nossos adeus; porque dois dias de cento e vinte reais vão nos despertar para um sono de lençol, e uma sacada com cheiro de areia úmida. Ficaremos juntos até que em volta dos seus braços finos fique todo o resto do que não se vale a pena abraçar; nada tem seu perfume. Cansei de esperar por algo de errado, você me funciona tão diferente. E se a noite acaba, amanhã tem pôr-do-sol. Traga sua liberdade, e me prenda nos seus sonhos planejados sobre o asfalto. Dessa vez, grita bem alto; é que eu me apaixonei pela sua voz.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Placebo

- Parece que isso foi feito pra usar com você.
- Parece que eu fui feita pra ficar com você.

domingo, 4 de maio de 2008

Contra

Eu não quero ficar egoísta. Sei que só você entende o que isso significa. Mas é difícil quando o alcool, a nicotina e o frio gritam com a gente, pedindo pela mesma coisa. Damos um jeito de disfarçar que não sabemos do que eles dizem. É como ignorar o sangue que passa pelas nossas veias. E nos meus sonhos, nós estamos mortos. Não faz diferença porque é apenas um sonho e amanhã eu acordo. A guerra agora é com o tempo, temos que apressá-lo sem correr perigo. Segurança só existe mesmo dentro de casa. Mas eu prefiro dividir a calçada enquanto ando do seu lado.

sábado, 3 de maio de 2008

Abstinência

Costas com a parede, braços de abraço com os joelhos. Os ponteiros que giravam eram a sua única preocupação. Ansiosa pelos minutos, o frio lhe castigava o rosto e os lábios maltratados estavam ressecados. A barriga reclamava por comida, e ela só reclamava a solidão. Quando é noite e escuro, tudo parece mudar de cor e tamanho. E assim, se via pequena demais para aquela sala, quase sem móveis. A distração cochilou nas luzes que passavam correndo pelo seu tapete, sempre que um carro dobrava a rua com os faróis acesos. Mas logo vem o sol, pontual, pensou ela. E esperava por sua visita, e pelas visitas que viriam com a sua visita. Aguardava o calor e guardava rancor.
Recobrando o gosto do passado decadente que caindo lhe trouxe até alí, como quem leva um tropeço em um lance de escadas, dois pingos de tinta vermelho sangue à cheiro de ferro, mancharam o jeans. Era o nariz chorando as sensações de poder dos tiros de rebeldia.
Ela se levantou e foi até o lixo do banheiro. Nasceu esperança de recuperar os dois anos que abandonou ao acaso. Mas já era tarde. Lembra? O sol estava a caminho.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Frio que não se sente

Dois cheiros são divididos pela difurcação de idéias. A mente correndo a milhões de quilômetros por hora, passa por cima de qualquer fraqueza; não há fome, medo ou vontade que não possa ser feita. O mundo é você, e você se torna o mundo, podre e cheio das suas imperfeições. Mas são seus braços que desentortam as placas e as ruas mal feitas. O ar limpo clareia os pulmões e as pessoas desaparecem de tão desnecessárias. A velocidade abraça as palavras que saem atropelando umas as outras, de repente aparece tanto para ser dito. Os dentes resistentes mastigam toda a covardia, e o amargo na garganta domina a boca toda. Estáticos e sincronizados a qualquer movimento, os olhos não dormem. As pernas ousadas querem ganhar o asfalto em cima dos pés alados, enquanto o nariz anestesiado por tanto perfume se perde no frio, no frio que não se sente.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Quando encosta o fim

Deve ser horrível envelhecer. A cozinha branca tinha alguns detalhes em preto e cinza, e a mesa intupida de comida, estava cercada pela família toda. Um homem frágil feito um bebê, tinha a pele manchada, a boca trêmula e os braços sem força alguma. Tantas vozes juntas e mesmo assim, seus ouvidos se perdiam nos seus olhos, que se perdiam no seu próprio passado. Ele assistia à sua infância, à sua timidez no primeiro encontro com a velha sentada ao seu lado, aquela moça de quando juntaram as vidas. Já foi neto, filho, irmão, pai, tio e avô. Já foi, e já está indo. Nem o relógio lhe agrada mais no pulso, o tempo passa assustador. Os gestos amargos cresceram junto com os anos, e já não existem mais chances de consertar a maioria dos erros. Das coisas que ele vai deixar para trás, só sentirá falta do que nunca teve e do que deixou de fazer. Coisas que viraram um buraco, do tamanho do seu corpo, uma cova bem funda no esquecimento das gerações não nascidas.
Então ele se levanta, porque já é hora de ir. É hora de estar em casa, de tomar remédio, de ir dormir. As pernas desobendientes mal erguem sua coluna, e os braços desconfiantes se agarram a qualquer coisa para mantê-lo em pé. Fala do prazer de rever todos os presentes, um abraço e um beijo de cortesia para cada um. Sua mão passa pelo encosto de todas as cadeiras, pelo ombral da porta, e pela maçaneta também. Chega a ser vergonhosa a falta de precisão, mas ele finge que passa por cima, e que não acabou. Deixou a casa na esperança de voltar no ano que vem, mas vai saber quantas mais hemodiálises ou injeções de insulina ele irá sobreviver. É tudo uma questão de tempo.

domingo, 27 de abril de 2008

Quilos de arrependimento

Me dá você pra mim. Te compro de novo se já te vendi. Você nunca teve uma etiqueta com qualquer preço, e jamais te vi exposto em uma vitrine. Te encontrei no presente mais perfeito que a gente viveu, ele nem precisou de embrulho. Mas olha, não se preocupe, eu sei que dessa vez vai me custar caro. Pode ter a certeza de que vou investir em cada beijo com o sabor das suas balas de mel, todo abraço de lua cheia e conversa de revistaria. Somos dois adolescentes de allstar planejando a melhor parte da juventude. Então me deixa sentir mais uma vez sua essência escondida no perfume do seu pescoço. Preciso tanto me perder do caminho de casa nos seus caichos, nos seus olhos castanhos, nas suas mãos confortáveis. Vamos visitar cada canto nosso, andar como donos de uma cidade tão pequena quanto a breve beleza dos dias em que os seus sorrisos me fizeram feliz. A gente pode conquistar o mundo, ou pelo menos aquele nosso que a gente sempre discute dentro de uma galeria vazia. Ainda podemos conquistar o chão da praça mais bonita ao deitar e olhar as estrelas. Eu, olharei sempre pra você. Tenho tanta pena das pessoas no avião, ou daquelas que estão presas dentro de suas tediosas salas de apartamento com as luzes acesas, elas não escutam. Já nós, temos a noite toda ao nosso favor, as manhãs de escola, e já tivemos as melhores tardes antes do sol adormecer. O ensino médio me manteve presa em você. Prometo que coloco sua foto de novo no porta retrato, e que hoje eu quero você mais do que já quis ontem.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Decrescente

A brisa da noite penteou o cabelo dela para o lado, mostrou seu rosto avermelhado e ele, dono da mesma vergonha, se manteve o tempo todo parado. A postos na calçada, esperando os carros passarem, o farol se aliou a eles e resolveu mudar sua cor, parando o tempo em volta. Pronto, sem muito ensaio as mãos se encontraram e a rua se fez livre para atravessar. Mais tarde, seria a chave da porta da frente quem mostraria o cenário do segundo ato.

Capitulo dois: A desconquista

O beijo molhado tinha sabor de decepção temperado à falta de atitude, o sofá não era tão macio e o silêncio ensurdecedor feria os ouvidos. Dos beijos que recebia no pescoço, ela refugiou seus olhos na lâmpada acesa, na esperança de que talvez a luz pudesse avisar o mundo, ou quem sabe algum curioso, de que duas pessoas ocupavam aquela sala. Mas a luz fugiu nos dedos frios de um homem tão menino que preferiu se mascarar no escuro com ajuda do interruptor. A partir daí, se descorreu uma sucessão de erros. A lâmpada desligada vendou a menina. Cega para admirar as qualidades dele, ela passou a tropeçar em tantos defeitos quanto lhe fosse possível, já que no claro - como havia se acostumado - os detalhes que via formava um rosto composto por métricas perfeitas que paralisava os seus pensamentos. Mas agora esse rosto estava perdido no preto, e seus pensamentos corriam junto de um grito surdo, um grito de socorro abafado naquele apartamento. Então a angústia invadiu o peito dela, a angústia presa nos lábios masculinos dele, tão delicados quanto os dela, femininos. A angústia dormiu na menina, a menina dormiu no menino e a lua dormiu no dia.
Num dia seguinte com a manhã mais bem vinda de toda a sua vida, o ar condicionado do táxi arrepiou todos os pelos da mesma menina. E olhando a rua e suas composições sem prestar atenção, ela sentia falta do café da manhã que lhe deveria ter sido oferecido com um sorriso escancarado. Distraída com o sabor do suco que cairia melhor com a refeição, confundiu a voz do taxista com a do seu próprio pensamento. De volta para a realidade, ao bater a porta do carro, alegrou-se por estar mais leve, livre para amar outra pessoa.

segunda-feira, 21 de abril de 2008

Feriado

O seu cheiro ainda estava na minha roupa, e foi assim que me demorei a entrar no banho, perdida em você. Se bobiar gosto até da sua antipatia com as palavras, da sua seriedade em forma de armadura, do sol que nos acordou e do ônibus que nos separou. Acho graça no seu jeito de respirar, e sorrio de olhos fechados, porque é inconfundível você. E aí, eu vou te ensinar tudo o que eu não aprendi contigo, e ganhar de você paciência, talvez até um pouco de responsabilidade - palavra que com você se fez coada do tédio. Pra que um homem, quando se enxerga um moleque? O mais perfeito e quieto deles. Adulto para o que aparenta ser, tão jovem para o que é. Parece que a vida lhe foi curta de tempestades, daquelas que te estragam um pouco. É desafio pra mim, travesseiro da ousadia. Mas não aposto em mais nada, nem prometo outra história. Que venha de certo, e o que vier, veio. Só que o seu cheiro... esse eu quero sempre comigo!

terça-feira, 15 de abril de 2008

Carrossel

Dessa vergonha que sentou do nosso lado, eu nem lembrava mais. Vem, me resolve essa vontade que eu tenho de te descobrir, esse gostar sem ter, sem sofrer, nos braços da infância. E cada olhar bobo, fim de assunto tímido, comentário que chega de alguém que conta, vira grande coisa, fica repetindo na cabeça. Então eu quero ouvir com euforia, de novo e de novo o mais mínimo detalhe que te escapou de mim. A gente vem vindo devagarzinho, virando casal sem me deixar tonta. De apontar para a nuvem te vi no céu, de um azul bem azul como a água da piscina dos seus olhos. Nesses eu mergulho sem bóia nem nada. E que seja bem fundo, estou precisando me afogar.

domingo, 13 de abril de 2008

Sim

O som repetitivo e o teor de insanidade aceleravam meu instinto. Seguia um amigo, seguia um estranho. Dedos com vontade própria avisavam a minha cabeça que queriam apertar aquela cintura masculina. Quando sua mão apoiou no escosto da cadeira, chamou a minha para que se ajeitasse sobre ela. E foi a falta dos olhares que negaram o descaso. Tudo sem o mínimo de porque. A razão destrancou a porta, o gelo esfriou a boca e o juízo fugiu sem deixar rastro algum pelo chão. Nesses meus últimos meses, me seqüestraram o não. Nas noites de céu escuro e sem estrelas, correm para longe as oportunidades de pedir socorro; em noites assim, prevalece sempre o sim. Os faróis se destorcem com a velocidade, os seus beijos se dissolvem com a intensidade. Se está tudo tão compatível, nada se choca. Vou mudar, só porque cansei de mudar... de par.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Advertência não verbal

Escrevi uma carta com folha pautada e caneta azul; você não vai ler. Pode deixar que quando der na telha amasso o seu papel na minha vida. Das fotos reveladas já te rasguei, do meu estômago te vomitei. Estou com preguiça de te conquistar, custa surpresas demais e criatividade. Não percebe que está tudo tão atrasado e previsível? Já li dezenas de vezes sinopses feito você. Seus passos já me alcançaram viciados, seus planos foram decorados. Vê se emposta a sua voz quando vier me dizer que não dá, senão fica difícil de te escutar. Só pra te avisar, teimosia não tem cura e eu sou muito doente.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

No caso de te perder

Nem tente medir o ódio que eu tenho pelo seu sorrisinho sem graça. Eu quero mais é que você perca os seus dentes e feche a boca de vergonha, pode aprisionar suas promessas de plástico. Você ainda me deve tanto! Vai que eu resolvo te cobrar? Não, eu não conto com isso, levo como lucro no caso de te perder. Sabe a luz da tarde que esquenta os lábios para nossos beijos calorosos? Não gosto dela. Prefiro a neve sobre o seu coração, ela me pede de blusa de frio, me mantém ocupada. Por que você não arrisca logo de uma vez? Bem agora que eu estou com sorte. Faço a morte chegar para o seu medo num segundo, só me faça o favor de deixar a porta descantracada.

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Por mais alguém

O passado não vinha me visitar ha tanto tempo. Hoje a música de escritor abriu as portas. Juro que tinha esquecido como era a sensação, juro que tinha esquecido como tudo funcionava. Algumas cores e nomes de cidades mudaram, talvez de um jeito menos desesperado. Agora minha identidade me leva para onde eu quiser, bem agora que eu desisti de fugir para onde tudo está salvo. Já perdi noções, visualizei loucuras e fui obssecada. Ah se tudo se resumisse num sorriso de praça de alimentação. Quem sabe se o mundo não girasse e não existissem outras pessoas, ainda seríamos uma da outra. Mas só tenho posse do pulmão que uso para respirar, e ainda assim, respiro por mais alguém.

Questão de gosto

Pega no meu braço, mastiga a minha vida e cospe suas respostas. Da dor que sobra na minha angústia se fez o combustível da sua fuga, e dentro daquele buraco que ninguém colocou em mim, ainda se perdem gestos. Não tenho mais forças para escalar o muro de dificuldades que você construiu entre a gente. O tempo envelhece as pessoas e os seus hábitos. Te vendo sério, ainda sinto falta da sinceridade no hálito da sua conversa. Se desfez o impacto, e o tempo passa descontraído, quase sempre destraído para o queríamos de nós dois. Não decidi escolher de um só para falar, se todos tem um restinho do mesmo; os atraentes cabelos escuros, as vidas e personalidades tortas, e os defeitos que me interessam.

sábado, 29 de março de 2008

O nem tanto pior

Tirou a maquiagem com a mesma vontade de que a colocou: nenhuma. O desânimo aumentava a cada peça de roupa que trocava, e a vergonha dissolvia o resto de força para subir as escadas, atravessar o palco sujo e com o menor sorriso que lhe coubesse na cara, cumprimentar quem lhe veio prestigiar de surpresa. Não encontrou um olhar de satisfação sequer. O dia amanheceu estranho, se arrastou assim durante toda a tarde e encostou do mesmo jeito na noite. Um grupo todo, no precipício pessoal de cada um, e na superfície de vida dos últimos finais de semana, respirava junto na pausa eterna da falta da deixa. Sofreu com a pressão de um poeta, que caída ficou no chão. Desembaraçou situações de nó cego. E o pior deles, ainda é um grande melhor. Parece que sempre terão uma segunda chance de surpreender o mundo todo. Mas os dias acabam, as semanas acabam, e as temporadas também. Grupos se separam, e os passos seguem por caminhos alheios. De um objetivo só, dinfundiu-se os focos de cada um, e todos se focalizaram para contar a mesma história. Dos graves fortes para os agudos estridentes, do baixo para o alto, os sons se juntaram, as vozes formaram uma só, e o silêncio se desfaz a cada sábado e domingo só para que ela GRITE.

Detalhe

Já é tarde, passou da noite. Amanhã o dia vai ser comprido, atolado de coisas de manhã até o céu escuro, e eu aqui, tentando adiar meu sono. Estou tão cansada, mas ao mesmo tempo desperta. O ronco da minha mãe me deixou com tédio de deitar, porque estar acordada é tão mais interessante, mesmo sem acontecer nada. Lembrei do Detlef hoje, na verdade, a voz mais gostosa de se ouvir ao telefone quem me lembrou. A gente sempre encontra uma citação em algum texto antigo. Acho que larguei a obcessão e voltei a ficar inclinada para mil novecentos e setenta e sete, minhas piras com o passado não terminaram ainda. Como pode um livro empoeirado, veneno para a minha rinite, rasgado e cheio de durex, recheado com páginas de um amarelo curtido pelos anos a fio, se tornar o meu maior tesouro? Nem o porta jóias de prata que minha vovó me deu esses dias é tão valioso. Por causa da história. Mas acredite, tem uma pouco da senhora Alice aqui também, quando eu li duas ou seis folhas na sua casa enquanto papiava com a mamãe. Eu li esse livro em tanto lugar, de tanto jeito, sentindo tanta coisa. Já até usei de escudo para o cheiro de angústia e o desespero de domingo à noite que tem a casa da madrinha. Li tantas vezes que sei decor. Tá, mentira, sei nada. Sei só que cresci, que quis experimentar o mundo e as suas coisas ruins. E me senti pouco por ter vivido menos que a personagem na época, mesmo eu estando mais velha. Me senti menos ainda em pensar que ela continua viva, vivendo ao mesmo tempo que eu, sem nem ao menos saber que eu li a sua adolescência inteirinha. Pelo que será que ela vive agora? Esse livro, sujo de ter passado por tantas mãos, esquecido e afundado no tempo, estragado de descaso, que nem me dado foi, faço dele agora - como antes fiz - posse minha. E dos treze de alguém, fiz meus dezesseis, e dos meus dezesseis, minha crise existencial. Continuo sem saber quem sou, assim, sucintamente, de me descorrer em uma frase só. Mas isso é apenas um detalhe, e a gente é feito de milhões deles.

sexta-feira, 28 de março de 2008

Agora é tudo novo

Sei que uso as mesmas palavras, sei que insisto em falar de distância. Mas garanto que é direcionado a novos rostos. Aqui escrevo de dois mil e oito, de um número par, correndo por não estar sozinho. Quando par é dois, quando par somos eu e você, a manhã, a tarde, e a noite não são tão longas quanto as madrugadas que fogem tanto de mim e do meu controle do tempo. Posso nem te amar ou te querer eternamente, mas as declarações já não são a motivação de tudo. O ar que eu respiro pode me acordar e o som da chuva me dormir como criança. E eu posso sorrir com qualquer palavra sua ou simplesmente bocejar bem grande, nem dependeria de você. Eu falo de humor, de ter a sorte de acordar bem. Da sorte que seria acordar do seu lado.