Mais uma vez a árvore serviu de apoio para o cotovelo dele. Lindo, sempre lindo! Esperava-me logo de manhã, em frente a escola. Aquele sorriso que se sorri de longe... dezenas de garotas nunca conseguiram alcançá-lo, como eu pude ser a escolhida?
Foi tudo culpa da cidade, é o que acontece quando não se tem nada para fazer. Depois de jogar meses pro alto e adiar algum compromisso, eu decidi parar de esperar por uma frase que ele nunca diria. Eu disse.
Jaqueta preta sobre uma camiseta branca, jeans justo, cadarços por amarrar, e um olhar de malandro chorão me convidando para uma volta. Eu fugiria para a Flórida com um garoto desses, sem dinheiro e sem adeus, abraçaria alguma estrada e dormiria no capô do carro. Mas guardei essas besteiras em alguma gaveta do meu cérebro, e segui nossas sombras em silêncio.
Só que depois vieram as cobranças, um vício é uma dívida, uma dívida que se deve para si mesmo. As noites duravam menos, e eu esperava que elas durassem para sempre, para que os amanhãs nunca fossem tarde demais. Duraram o nosso preço, enquanto nos desvalorizávamos. Sempre é tarde demais quando não se tem nada.
Fez uma cabaninha com a mão para que o vento não apagasse o fósforo, e acendeu seu cigarro falando da cor dos meus cabelos. Antes que desse a primeira tragada, já me tinha completamente apaixonada. Sua boca era uma tela que eu precisava pintar com meu batom.
As pessoas, as desnecessárias pessoas. Pesavam nas nossas costas, colocavam seus calcanhares sujos em nossa direção, nos freiavam com tropeços. Sobrou no resto de qualquer amor próprio o egoísmo. Foi aí que esquecemos um do outro.
Olhou pra cima, instântaneamente olhei também. Dizia estar procurando algo, rodiava em volta das árvores, andava rápido pela grama.
- O que é que você tanto procura?
- Eu perdi, perdi um beijo. Me ajuda a encontrar?
Então ele me deu um beijo.
- Encontrou?
- Não, não. Preciso procurar melhor...
Abafei o grito e as lágrimas no travesseiro. Já estava feito. O amor estava desfeito. E eu que sempre achei que as portas fossem feitas para atravessar as paredes, me tranquei no quarto. Luzes apagadas, fiz questão de cobrir com o edredon a própria cabeça. Como esconder a vergonha se ela se esconde comigo?
Continuamos nos beijando por toda a tarde.
terça-feira, 24 de junho de 2008
Entrelaçado
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