-->

quinta-feira, 30 de dezembro de 2021

Teletransporte

Alguma música já conseguiu te transportar para algum lugar? Para quando você ainda era uma outra pessoa, um alguém mais fresco, menos definido. Com conflitos que hoje são tão distantes... Quase não me reconheço. E às vezes, posso até sentir o cheiro do primeiro dia de aula no ensino médio, da grama que deitávamos depois de beber qualquer coisa barata. O cheiro das festas, o cheiro das notas, o cheiro no pescoço. Se eu fechar os olhos posso me lembrar de como era me olhar no espelho, como era a sensação, quais eram os medos... que paradoxalmente, eu já não sinto mais.

Bonnie & Clyde

Eu costumava fumar, sabe? Geralmente de madrugada, quando eu me sentia com toda uma vida pela frente. O preto do céu, a sensação de infinito com gosto de fumaça nos meus pulmões. Fumava torcendo para viver uma aventura que parecesse com algum livro, daqueles que me faziam sentir coisas. Eu estava com o coração pronto para ser despedaçado e machucado. Desesperada para me sentir viva, mesmo que fosse flertando com o perigo. 

E então eu encontrei um parceiro. Não posso dizer que me apaixonei, ou que o amei. Eu só me sentia atraída pela sua melancolia, seu porte andrógeno e sensível, e sua fraqueza por drogas. Na época, meio que todo mundo estava usando algum tipo de droga. É uma confusão muito maluca na cabeça dos adolescentes. A gente quer deixar uma marca em tudo, seja no psicológico, no mundo ou apenas as nossas iniciais numa árvore. 

Eu costumava fazer muita merda, sabe? E não me orgulho disso hoje em dia, que também nem faz mais parte de mim. Nem o jeito imprudente de levar a vida. Mas eu gosto de tudo que eu fiz. Serviu ao seu propósito. Eu sobrevivi, estou melhor e maior. Enfim, viva. 

sábado, 11 de dezembro de 2021

Sem linearidade

Mais uma noite difícil de dormir, ouvindo músicas que me fazem viajar no tempo. Lugares como a madrugada onde eu fumava um cigarro no corredor de um prédio no sul do país trocando confidências de planos futuros com a pessoa mais importante da época. Eu acho que consegui desviar de todos eles. O futuro é inimaginável.

domingo, 5 de dezembro de 2021

Cartas ao meu avô

Às vezes eu acho que a caligrafia é hereditária. E também acho que a gente teve os mesmos sonhos nas nossas vidas totalmente diferentes. Eu adoro o jeito como você gosta de quem é e do trabalho que sempre fez, que o escolheria sempre de novo e de novo. E isso me deixa tão mais confortável com as escolhas que eu fiz. 

Às vezes eu acho que o jeito que temos com as nossas mãos é hereditário. E a forma como você constrói suas lembranças me lembra como eu guardo meus momentos mais queridos. A vida te fez tão forte, queria que isso fosse hereditário também. 

Mas sabe, tem vezes que eu acho que até o gosto pelo café é hereditário. E como ele contorna nossos encontros, presente, como um pano de fundo, nas nossas conversas intermináveis.   

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

Desfiando

Lembro como eu costumava me sentir presa, emaranhada nos fios que bordaram para mim. Era uma roupa tão pequena que mal me cabia, e que limitava a maioria dos meus movimentos. Eu não conseguia correr, muito menos me esticar.

Quando a culpa já não me cabia, feito roupas velhas em alguém que cresceu demais. Desfiz tudo, fio a fio, nó a nó, enquanto aprendia a respirar confortavelmente. É claro que a ansiedade ainda me faz esquecer de respirar vez ou outra. E também tenho lá meus medos de tomar tantas decisões. Mas dessa vez elas são todas minhas.