Algumas contradições chegaram até mim nesse natal desanimado. Acho que já virou alguma tradição essa de ter natais falidos e sem sentido. O natal deve perder o sentido para todo mundo depois que deixamos de pertencer à infância, não é verdade? A única coisa de que realmente tirei proveito - porque há tempos os presentes já não salvam essa comemoração - foi a conversa que tive com o meu tio. Um dos poucos caras que merecem o meu respeito, mas esse não é um assunto do qual eu queira me estender agora. Falava da conversa com o meu tio, era sobre o tempo. O tempo que passou rápido demais. Eu já me confundo com a idade dos meus primos, e os meus mais velhos já tem filhos e família formada, alguns outros nasceram ontem e hoje já falam, andam e jogam bola. E eu? Bem, já estou terminando a faculdade. O tempo correu, ou simplesmente passou, assim, ardilosamente, sorrateiramente, de maneira que nem o vimos ganhar peso em nossas costas. Meu tio estava assustado, e me falava das alegrias, mas da tristeza que era envelhecer. Eu sempre soube que era mesmo triste ficar velho, estudei sobre isso. E apesar de tudo o que você vê e aprende, parece que tudo o que se conquista já não é mais para você. É como se só coubessem erros na vida, e os acertos são como mitos ou histórias que se conta para os seus mais novos, que evidentemente não te escutarão já que está na vez deles errarem.
Com tantas promessas de felicidade, dias melhores, as enfim conquistas, quem quer ficar aqui? Eu me vejo com pressa. Como senti vontade de pular logo para o começo das minhas glórias! Tudo o que encaixei convenientemente no futuro por não servir ainda no meu presente. Mas e se nada disso acontecer? E se as cartas estiverem erradas, e se eu estiver superestimando aquilo que nunca chega, e... Dai achei melhor aproveitar esse monte de coisa que está dando errado, acompanhar o agora, sabe? Eu não sei. Acho que nasci com essa mancha na minha alma, esse mofo sonhador que suja tudo de mais prático que eu poderia ser. Eu durmo, acordo e somente me mantenho em pé por causa do futuro. Quem sabe eu não deveria ter mantido mais apertado os laços que tinha com minhas tias? Mas ontem vi o quanto as mal suporto, e o quanto elas não sabem de mim. Eu poderia ter contado. Só que não tenho mais paciência para lidar com as decepções que eu venha a ser para elas, nem para aturar as suas críticas. Eu sou diferente, sempre fui. Mas a chance é minha agora, não delas. Elas passaram a vez. Pensei também nos meus trinta. Depois da conversa que tive com o meu tio, percebi que não tenho muito tempo. Oito, sete anos? Passam tão depressa. Eu já deveria começar a tecer uma rede bem debaixo dos meus pés, caso eu caísse escalando tão alto essas montanhas de sonhos. Talvez eu nunca chegue ao topo, mas se cair ainda estarei a salvo. Mas de todos, eu só não gostaria de decepcionar a mim mesma.
Eu, vendo meus primos, os vejo como uma derrota, uma derrota neles mesmos. Era isso que eles achavam que seriam quando crianças? Todo mundo quis ser o vocalista famoso daquela banda de rock, ou a atriz principal daquele filme de cinema, o médico herói, o executivo rico. E o que eles são hoje em dia? Simples. Eles sobrevivem, e agora veem seus filhos tentando ser aquilo que eles sempre quiseram ser. Talvez seja esse o motivo de eu nunca querer ter filhos. Não quero dar para ninguém aquilo que devo ser, aquilo que eu sempre quis. Não vou passar a vez, como as minhas tias, e criticar seus sobrinhos por terem se desviado daquilo que elas esperavam delas mesmas. É tudo um amontoado de egoísmo, vê? E é sempre nessas festas que a gente enxerga tão claramente o quanto estar vivo é frustrante. Quando eu lembro da minha adolescência rebelde e das coisas que eu vivi e ninguém nem imagina, é uma parte minha que eu gostaria de estender. Eu ainda tenho muito o que viver, e espero sentir isso por todos os dias da minha vida.
