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sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Engrenagem

Eu não tenho medo de altura, e mesmo assim fiquei tão presa ao chão dessa vez. Talvez eu só tenha envelhecido e isso me traz um medo cansado. Eu só queria ficar. Queria ter ficado naquela praça até depois das dez. E também queria ter dormido naquele sofá com sua cabeça sobre a minha perna. Queria ter ficado naquele café-da-manhã tão vagabundo quanto era o bar de esquina, só por causa da sua conversa. Queria ter ficado nos seus olhos. No farol fechado, dentro do carro, ouvindo o nosso silêncio distraído pelo movimento da cidade. Um pouco mais, sempre um pouco mais.

Depois parece até que entendi como as coisas funcionam, e é aí que eu percebo que não sei de nada. Só que tudo sempre acontece em ondas, fortes ou brandas, mas em ondas. É como se a minha vida quisesse tratar de apenas um assunto por vez, enquanto eu quero tudo junto. E assim vejo uma paixão trazendo outra, um problema criando outro, e quanto menos eu sinto, menos há para sentir. E quanto mais eu quero, mais há para querer. E então eu tive que entrar naquele ônibus às dez e quinze. E te acordar para levantar do sofá. Ainda com fome e cheia de coisas para falar, pagar a conta no caixa e caminhar até o metrô. Sair de vista, da sua vista. O farol ficou verde, um assunto qualquer nos focou novamente. E os dias passaram, eles sempre passam cada vez mais rápido.

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