Já é tarde, passou da noite. Amanhã o dia vai ser comprido, atolado de coisas de manhã até o céu escuro, e eu aqui, tentando adiar meu sono. Estou tão cansada, mas ao mesmo tempo desperta. O ronco da minha mãe me deixou com tédio de deitar, porque estar acordada é tão mais interessante, mesmo sem acontecer nada. Lembrei do Detlef hoje, na verdade, a voz mais gostosa de se ouvir ao telefone quem me lembrou. A gente sempre encontra uma citação em algum texto antigo. Acho que larguei a obcessão e voltei a ficar inclinada para mil novecentos e setenta e sete, minhas piras com o passado não terminaram ainda. Como pode um livro empoeirado, veneno para a minha rinite, rasgado e cheio de durex, recheado com páginas de um amarelo curtido pelos anos a fio, se tornar o meu maior tesouro? Nem o porta jóias de prata que minha vovó me deu esses dias é tão valioso. Por causa da história. Mas acredite, tem uma pouco da senhora Alice aqui também, quando eu li duas ou seis folhas na sua casa enquanto papiava com a mamãe. Eu li esse livro em tanto lugar, de tanto jeito, sentindo tanta coisa. Já até usei de escudo para o cheiro de angústia e o desespero de domingo à noite que tem a casa da madrinha. Li tantas vezes que sei decor. Tá, mentira, sei nada. Sei só que cresci, que quis experimentar o mundo e as suas coisas ruins. E me senti pouco por ter vivido menos que a personagem na época, mesmo eu estando mais velha. Me senti menos ainda em pensar que ela continua viva, vivendo ao mesmo tempo que eu, sem nem ao menos saber que eu li a sua adolescência inteirinha. Pelo que será que ela vive agora? Esse livro, sujo de ter passado por tantas mãos, esquecido e afundado no tempo, estragado de descaso, que nem me dado foi, faço dele agora - como antes fiz - posse minha. E dos treze de alguém, fiz meus dezesseis, e dos meus dezesseis, minha crise existencial. Continuo sem saber quem sou, assim, sucintamente, de me descorrer em uma frase só. Mas isso é apenas um detalhe, e a gente é feito de milhões deles.
sábado, 29 de março de 2008
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