Eu devo isso a mim. Sinto que preciso me pronunciar e tirar todo esse pesar daqui de dentro. Não, eu não estou legal, desde o dia 14 de março que eu não consigo respirar tranquila, que dormir é difícil, que os olhos permanecem úmidos, que a desesperança me abraçou e que as redes sociais se tornaram ainda mais espinhosas. Desde 14 de março que sinto tanta necessidade de participar de mais protestos e manisfestações sociais. Que dói ser brasileira, mulher e lésbica.
Deus, só eu sei o quanto sou privilegiada! Estudei em escolas boas, tenho ensino superior, vim de uma família de classe média e nada nunca me faltou. Eu nunca fui discriminada pela minha cor, nunca ouvi tiroteio de dentro de casa, nunca deixei de ir para escola porque haviam mortos na minha comunidade...
E ano de eleição é um ano tão intenso, tão triste. A gente fica agressivo. O preconceito velado fica evidente, mentiras aparecem, a gente relembra tanta lama, escândalos, e temos que decidir, ainda que de mãos atadas, pelo futuro de um país tão maltratado.
Sabe, eu lembro tão bem de quando eu era criança e a minha mãe falava que morávamos numa terra abençoada. Que o Brasil era rico, quente, com pessoas boas, um país sem guerra. Mas eu não sabia que a guerra acontece deliberadamente com os pobres, todos os dias. A cada 9 minutos uma pessoa é assassinada aqui. A cada 10 pessoas que a PM mata, 9 são negros ou pardos. O Brasil é o país que mais mata transsexual no mundo. O machismo rola solto! Com 12 mortes de mulheres e 135 estupros por dia. O país com maior taxa de mortes violentas no mundo. E isso sem nem terem liberado as armas para a população, os ditos cidadãos de bem. Os mesmos que deslegitimizam lutas, que permitem que a igreja que exclui, oprime e discrimina domine com o estado, que preferem hidrelétricas à comunidade indígena, que preferem dinheiro e movimentos na bolsa à questões sociais, e que defendem a propriedade privada ante famílias desabrigadas. Existem mais prédios desocupados do que pessoas na rua, mas ninguém se importa.
Dói. Dói muito. Eu estou de luto e preciso dessa catarse.
sexta-feira, 23 de março de 2018
Luto
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