Minha memória me falha de vez em quando. Eu viajei para o passado recentemente e vi e senti vários recortes do que vivi, e fiquei interpretando todos eles com contextos atuais. Tive muita vergonha, arrependimento e vontade de corrigir tanta coisa. Eu cheguei a pensar em alcançar algumas pessoas, cheguei a pensar que tudo estivesse a apenas uma mensagem de distância. Para, sei lá... Dizer o que eu achei que deveria ter sido dito, e de repente até ter as conversas adultas que não soube ter, mostrar alguma vulnerabilidade, dar espaço e abertura.
Mas aí eu me dei conta de que ter preenchido um diário por quinze anos dava toda a licença para que os contextos antigos se explicassem. Eu entendi de novo, tudo. Ou quase tudo - porque minha visão se limita só a mim, e eu só senti o que foi meu.
Eu não me sinto muito melhor, para dizer bem a verdade. Porque não é fácil de se ler com menor maturidade, e mais difícil ainda é ver que você continua sendo a mesma pessoa que escreveu aquelas palavras, mesmo que hoje esteja adulto. E assim, acho que eu nem saberia como agir diferente naquela época, deixando tudo com uma sensação de paradoxo, meio que uma antítese da antítese.

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