Tinha essa menina que morava com a avó. A casa tinha muitas poltronas e seguiam cores quentes. A tarde, a luz contornava a cortina e abria um risco naquele chão de tacos, e era sempre onde ela se deitava. Algum calor se passava por aquela linha, seus cabelos pareciam clarear, e seus olhos só abriam com esforço - preferia desse jeito, mesmo com eles fechados, era menos escuro assim.
A cidade não parecia uma cidade, asfalto era raro, e todas as casas tinham uma varanda extensa. Ela não gostava de ficar na varanda, remetia-lhe à mãe. Preferia estar dentro de algum cômodo, fingindo morar em um país diferente, e que enquanto lia livros velhos de outra pessoa, cheios de um cheiro de mofo estranhamente acolhedor, a neve caía lá fora. Qualquer coisa que lhe tirasse da realidade que era sentir a falta de alguém.
Enfim. Tinha essa menina que morava com a avó...
quarta-feira, 29 de dezembro de 2010
A landscape to cheat the sadness
Pesadelo
Tem esse sonho que algumas noites repetem, onde o sono me coloca em um pedaço desabitado de cidade. Conseguia te ver, estava de costas, meio quarteirão adiante. Era mesmo você, já podia te sentir. O vento fazia carinho nos seus cabelos e me trazia seu cheiro, senti ciúmes. Poucos passos meus te alcançariam, e isso fazia de mim toda um grande sorriso por dentro. Por alguns segundos o mundo era apenas aquele chão descolado da terra, um cenário cinza que nos envolvia com ar gelado de outono, e folhas secas flutuantes.
Quando me aproximo, esse carro sempre passa como um susto pela rua que corta a gente. E antes que eu atravesse, o farol vermelho me faz parar. É como se toda aquela situação quisesse me contar um segredo. Nessa espera você se vira, e me encara por alguns instantes. Seus olhos me esquentam tanto que eu quase desejei que isso durasse tanto quanto eu fosse durar... Até perceber seu olhar me atravessando vazio, e entender que você já não podia me reconhecer. Isso deixava um gosto de desespero na minha boca. É quando eu acordo para continuar na cama, amando sozinha.
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
A surdez
Não sei mais o que essas conversas vão costurar... o som do rádio está alto demais, gritando violões e melodias que eu não suporto por abafarem a sua voz para o que eu quero ouvir. E apesar de tanto talento, eu só consigo mesmo é me interessar pelos seus beijos.
sábado, 25 de dezembro de 2010
A manobra que o medo faz
A cama me subia para as núvens quando eu refletia minhas lembranças de você no teto do meu quarto. Falsas lembranças; essas que eu já tenho de tudo aquilo que a gente viveu e ainda não aconteceu.
E se não fosse você, eu - acho que - saberia. Mas já posso sentir o cheiro da saudade de longe, muito longe. Coloquei minha pressa em passos curtos, e continuo querendo correr... para você.
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
Tempo verbal
Quando eu penso na casa que construí, a casa de palavras desenhadas nas paredes, de janelas feitas de espera, de um telhado de sonhos e um carpete de distância corrida, lembro que só me esqueci de uma porta da frente. Sim, daquelas enormes com trancas, chaves para perder, e duras feito o silêncio. Talvez eu devesse ter erguido uma porta forte como uma frase no pretérito perfeito. Em vez disso, apenas esqueci de escrever. Eu não pretendo trancar o passado, apenas mudar de endereço.
