Vieram dizer que meus textos são tristes, mas são os dias cinzas que colorem o papel.
sexta-feira, 26 de outubro de 2012
Engrenagem
Eu não tenho medo de altura, e mesmo assim fiquei tão presa ao chão dessa vez. Talvez eu só tenha envelhecido e isso me traz um medo cansado. Eu só queria ficar. Queria ter ficado naquela praça até depois das dez. E também queria ter dormido naquele sofá com sua cabeça sobre a minha perna. Queria ter ficado naquele café-da-manhã tão vagabundo quanto era o bar de esquina, só por causa da sua conversa. Queria ter ficado nos seus olhos. No farol fechado, dentro do carro, ouvindo o nosso silêncio distraído pelo movimento da cidade. Um pouco mais, sempre um pouco mais.
Depois parece até que entendi como as coisas funcionam, e é aí que eu percebo que não sei de nada. Só que tudo sempre acontece em ondas, fortes ou brandas, mas em ondas. É como se a minha vida quisesse tratar de apenas um assunto por vez, enquanto eu quero tudo junto. E assim vejo uma paixão trazendo outra, um problema criando outro, e quanto menos eu sinto, menos há para sentir. E quanto mais eu quero, mais há para querer. E então eu tive que entrar naquele ônibus às dez e quinze. E te acordar para levantar do sofá. Ainda com fome e cheia de coisas para falar, pagar a conta no caixa e caminhar até o metrô. Sair de vista, da sua vista. O farol ficou verde, um assunto qualquer nos focou novamente. E os dias passaram, eles sempre passam cada vez mais rápido.
quarta-feira, 24 de outubro de 2012
Novo
Ela me fez sorrir, depois eu perdi a noite. Em seguida a manhã que passou devagar e se colou pela tarde que se arrastou até que ela me fizesse sorrir novamente. E depois de novo, e de novo, de novo, novo.
terça-feira, 23 de outubro de 2012
Sobre o que eu nunca tive
Pensei que daria tempo. Que dessa vez o mês se abriria com nuvens claras, que os dias seriam contados pelos que te abracei. Ouvi o telefone tocar quando ainda estava com a chave girando na fechadura do portão. Não consegui atender. Na verdade, não queria ouvir nada. E agora? Ninguém me ensinou a te deixar ir.
sábado, 20 de outubro de 2012
Elástica
Quisera eu que você tivesse perdido o meu número de telefone, talvez eu não estivesse me sentindo assim agora. Eu tinha até ensaiado algumas frases para caso você voltasse atrás, mas esqueci de deixá-las anotadas em algum lugar, e quando você voltou eu só pude te abrir os braços.
Espero que você não ria ao ler isso. É que mesmo sabendo que você não vai ler, eu escrevo como se fosse. Eu gosto de você. Gosto mesmo. Eu bem sei que você não gosta igual. Sei que você tem o seu passado tão mais pesado na balança, e os seus enroscos. Mas não quero nem saber! Não me fala nada, porque a minha imaginação já me castiga demais. Só que vem cá, ainda preciso dizer que você é bem o tipo de menina que eu levaria a sério, e você nem é o meu tipo de menina. E eu também sei que você nunca me veria sem esse tom de brincadeira que me veste, e também sei que por isso você nunca confiou em mim. E vai soar tão melodramático quando eu disser que não sei se vale a pena a gente voltar a conversar. Eu sinto tanto a sua falta! Mas já não te espero mais. E se isso voltar, quando você for embora por dois dias, eu estarei aqui esperando, com uma onipotência tão otimista ao ponto de te colar nos meus planos para as próximas férias, e próximas viagens, e o ano novo. Um ano novo, com você. Porque esses planos idiotas, bem, eles me distraem da solidão. E quando eu me sinto sozinha, eu só me sinto sozinha de você. E então, você vem, ou vai? Não, não me responde. Você não precisa. Você nunca precisou.
sexta-feira, 5 de outubro de 2012
Pulando muros
Ninguém vai entender todo esse rodeio que a esperança faz, mas eu continuo esperando. Não é como se você fosse chegar. Como se eu fosse sair do trabalho pra te ver sorrindo do outro lado da rua, com esses seus grandes e bondosos olhos serrados pelo sol. Não é como se eu fosse assistir ao meu tédio me dando alívio porque você estava passando por perto e tocou a campainha da minha casa. Não é como se a gente fosse se encontrar.
Meus sonhos são todos ao contrário, e neles você sempre vai embora. Só que você nunca veio. É estranho, não é? Mas bastou eu te querer para te perder, porque eu não sei arriscar, assim como não sei matemática, assim como as fórmulas de física nunca me ajudariam a calcular a sua reação. Talvez eu não queira nem saber, porque desse meu nada eu ainda tenho a dúvida que me traz esse: às vezes você só ainda não entrou porque eu nunca te convidei para atravessar a porta. E quando me falha a voz ao telefone, ou quando fico horas de frente com o caret de uma caixa de texto piscando, posso ver o quanto que o otimismo saiu de moda.
Sempre tive medo de morrer no meio de algo, sei lá, qualquer história que eu estivesse escrevendo, qualquer romance que eu estivesse vivendo, ou sonho que me acordasse todos os dias. Mas de todos os medos, o que mais me aperta o peito é o de ver um futuro que não me agrada. E assim me aproximei do passado com essa sensação de que eu deveria ter te conhecido antes, mas pontualidade nunca foi o meu forte.
domingo, 16 de setembro de 2012
Não posso te deixar ficar
Já nem sei mais o que é que me deixa acordada a noite. Costumava me fazer bem... pensar. Queria te mostrar tudo ao redor. Mas não sei insistir, não sei mostrar que a solidão me trouxe você. E me vejo brigando com o passado, o seu e o meu.
