Eu me desobrigo à perfeição. Eu me desobrigo da beleza. Dos filtros. Eu me desobrigo de tudo o que me manteve calada por tanto tempo.
quarta-feira, 31 de março de 2021
quinta-feira, 6 de agosto de 2020
Exaurida
A depressão me tirou todas as palavras, amassou a minha garganta como um pedaço de papel rascunhado. E sem voz para pedir ajuda, para levantar o espírito na frente do espelho, eu me embotava em um casulo de edredon, sem tempo frio. Mas o gelo no meu peito atordoava a minha respiração. Estava congelada de dentro para fora. De ansiedade paralisante. E se meus fracassos do passado se repetirem no futuro? E se esse for o ciclo? Sem tentar para não falhar. Sem andar para não tropeçar. Sem dormir para não acordar.
terça-feira, 7 de julho de 2020
Fora dos planos
O não desceu pela garganta seco. E um cubo de gelo se alojou no meio do meu peito. Parecia sedutora a ideia de não precisar mais resolver todas as mudanças, colocar a vida nova numa mochila e voar. A estagnação seria a única certeza desses tempos tão sombrios. Fácil. Mas a tristeza logo me pegou os pés com bola e corrente. E os dias passaram a se arrastar novamente. Até quando?
segunda-feira, 13 de abril de 2020
Pandemia
Um feixe de luz bem quente atravessa a cortina improvisada, e entre gatos, beijos preguiçosos, notícias terríveis, ansiedades e barganhas com nossas próprias esperanças, ficam rondando nossos sonhos suspensos. Por enquanto tudo espera por uma trégua. O inimigo invisível veio nos desmascarar mais uma vez. Sorte aos sobreviventes.
segunda-feira, 2 de março de 2020
Lazy day
Uma luta contra o despertador. Um pé na frente do outro tateando o escuro. Alguns segundos apoiando na cômoda, um suspiro para escolher um par de meias. Outro suspiro e eu me lembro de que estou viva e preciso ir. Um tropeço no tênis, um chute na cama e fecho a porta devagar.
Poluição
O ônibus te chacoalha de qualquer jeito como se você fosse uma caixa de encomenda, e um grupo de adolescentes gritam em rodinha e atrapalham a música alta no seu fone de ouvido. A paisagem na janela não ajuda muito. Os olhos de todos é fundo de desesperança e desespero. As paredes estragadas repintadas e surradas pelo tempo e o concreto barato estão em todos os lugares. Os sinais não são respeitados. As fumaças que saem dos carros se juntam com as das fábricas e a das fogueiras improvisadas embaixo de pontes. O ar é pesado. É um esforço andar sem ser levada pela multidão, sem trombar nas pessoas, sem ser atropelada, sem ser assaltada, sem ser assediada, sem ser roubada de si mesma pelo buraco do abismo cinza e marrom sujo da grande metrópole mal cuidada. É pesado - sobre - viver aqui, ali, ao redor desse caos.
A noite os ruídos não param. A cidade não para. Ninguém descansa. A ansiedade é de todos, o medo e o alerta é geral. Tem que ficar esperto, de sono leve. Tenha pressa. Não atrapalhe! Saia da frente! Estão todos atrasados e correndo. Se não, estão apenas se distraindo da dor que é essa poluição toda.
quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020
O tal filtro
Como eu queria que meus sonhos fossem como óculos ou lentes de contato. Queria emprestar minhas visões do futuro. Você sorrindo com o vapor saindo da sua boca. O sol derretendo a neve no telhado. O chá esquentando minha mão enquanto você me conta algo empolgada com sua linda blusa de lã azul. A janela grande, e a sala espaçosa. O chão de madeira onde um bebê engatinha até o brinquedinho de música. O seu piano e algumas notas erradas até a música flúida, um ensaio. O cheiro do jantar, e a mesa posta. O tilintar dos talheres com gargalhadas. Algumas discussões ao levar a louça para a cozinha. O consolar na cama. O carinho antes de dormir, e aquele mesmo e conhecido beijo de boa noite. Tudo isso com cores tão vívidas. Queria te emprestar o que vejo por trás dos meus olhos com sensações quentes que preenchem o vazio do não sentido. Porque com você tudo faz sentido.
